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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A GOLEADA PERDIDA


ATLÉTICO MADRID - FC PORTO 2 - 2
Liga dos Campeões 2008-09 (1/8 Final)
24 de Fevereiro de 2009
Estádio Vicente Calderón (Madrid)
Árbitro: Howard Webb (Inglaterra)
Atlético Madrid: Léo Franco; Seitaridis, Pablo, Ujfalusi, António Lopez; Maxi Rodríguez (Miguel 80'), Paulo Assunção, Raúl Garcia (Maniche 67'), Simão; Aguero (Sinama-Pongolle 56'), Forlán. Tr: Abel Resino
FC Porto: Helton; Sapunaru (Pedro Emanuel 79'), Rolando, Bruno Alves, Cissokho; Fernando, Raúl Meireles (Tomás Costa 90'), Lucho González; Lisandro (Tarik 90'), Hulk, Cristian Rodríguez. Tr: Jesualdo Ferreira
Ao intervalo: 2 - 1
Marcadores: 1 - 0 Maxi Rodríguez 3', 1 - 1 Lisandro 22', 2 - 1 Forlán 45', 2 - 2 Lisandro 72'
CA: Raúl Garcia 24', Sapunaru 27', Lisandro 60', Paulo Assunção 74'


Empate amargo para o FC Porto. Mesmo sabendo que empatar fora, com golos, numa eliminatória da Champions é um resultado positivo, o FC Porto fica a dever a si próprio e a alguns azares, uma vitória na capital espanhola, por números bem expressivos até. Os portistas vulgarizaram o Atlético Madrid e só a falta de eficácia na finalização e a arbitragem caseira impediram o sentenciar, desde já, da eliminatória. Ficou demonstrado que, ao contrário do que havia declarado Paulo Assunção antes do encontro, o FC Porto é, nesta altura, uma equipa muito superior ao Atlético. A forma personalizada e inteligente como se exibiu no Vicente Calderón não foi por acaso.

O FC Porto controlou a quase totalidade do jogo, criou imensas oportunidades claras de golo (muito mais que o adversário) e denotou maior agressividade, objectividade e lucidez. Soube sempre o que tinha de fazer para levar o perigo à baliza madrilena. Tivesse existido maior frieza na hora de definir as jogadas e poderíamos estar perante um desfecho humilhante para o Atlético, tantas foram as vezes em que o trio ofensivo azul e branco lançou o pânico na defensiva caseira. Este FC Porto está efectivamente talhado para os jogos mais difíceis, onde não tem de assumir o jogo abertamente e em que o adversário lhe concede os espaços necessários para que o futebol explosivo de transições fortes possa surtir o efeito pretendido. Rodríguez e Hulk estiveram particularmente inspirados e foram duas setas apontadas à baliza de Léo Franco. Lucho foi o patrão do meio-campo, com a sua habitual mestria na hora de decidir o caminho a seguir, especialmente durante a primeira parte.

O plano de jogo definido por Jesualdo Ferreira apontava claramente para o triunfo e o desempenho da equipa justificava amplamente tal desiderato. No entanto, estava escrito que este seria um jogo marcado por inúmeras adversidades e que só com muita cabeça e um espírito de grupo muito forte se conseguiria evitar uma injusta derrota. Há muito tempo que não sentia tanto nervosismo a ver um jogo de futebol. A Champions é um mundo à parte, estes jogos têm uma carga completamente diferente dos compromissos internos e ver a equipa a jogar melhor, a merecer golear e a perder, contra uma equipa inferior, com golos falhados em catadupa, uma arbitragem tendenciosa e o 'frango' de Helton em cima do intervalo, estava a deixar-me fora de mim.

Logo aos 2 minutos, o FC Porto mostrou ao que ía: arrancada demolidora de Hulk (é um fenómeno este brasileiro, mas ainda há gente que acha que ele é tudo menos jogador de futebol!), passe para Rodríguez que, já dentro da pequena área, em vez de assistir Meireles para um golo fácil, rematou contra um defesa espanhol. Estava dado o sinal. Só que na primeira vez que chegam à baliza, os 'colchoneros' inauguram o marcador por Maxi Rodríguez, num lance em que Cissokho não efectuou a cobertura ao argentino como devia. Sem nada ter feito por isso, o Atlético colocava-se em vantagem.

O FC Porto, porém, não se ressentiu e a reacção foi enérgica. Hulk foi a principal ameaça nesta fase para os espanhóis que não tinham antídoto para travar alguns piques avassaladores do '12' portista. Forlán ainda teve nos pés o segundo golo (boa defesa de Helton), mas o FC Porto estava a carregar e deliberadamente à procura do empate. Empate esse que foi alcançado aos 18 minutos de forma legal, por Lisandro, mas o árbitro anulou o lance por fora-de-jogo inexistente. Sobre isto, queria manifestar o meu repúdio pelo facto de o narrador da RTP não saber sequer o que é um fora-de-jogo, pois dizer que o lance é bem anulado, por Lisandro estar adiantado em relação ao penúltimo homem do Atlético, mas esquecendo-se que estava em linha com a bola, é surreal para um jornalista desportivo. Sim, depois lá lhe disseram as regras e emendou a mão, mas a incompetência (ou será outra coisa?) estava demonstrada. É este o serviço público que temos.

Mas o golo não tardaria. Após uma falha de Raúl Garcia, Lisandro surge isolado face a Léo Franco e atira a contar, minorando a injustiça que o resultado continha. O FC Porto continuou a dominar as operações e pressentia-se que a qualquer momento poderia passar para a frente. Lisandro teve uma oportunidade flagrante, após excelente jogada de Rodríguez, mas não conseguiu manter o acerto na finalização, permitindo a defesa do guarda-redes. A seguir, foi Hulk que, isolado por uma assistência primorosa de Meireles, permitiu nova intervenção providencial de Léo Franco. O FC Porto já ía justificando a reviravolta, numa partida que mantinha um ritmo elevado. Hulk e Rodríguez continuavam a deixar os adeptos madrilenos apreensivos com as suas 'explosões'. Aos 42 minutos, novamente o 'Incrível' a passar pelo opositor com facilidade e a disparar para a baliza, mas a bola sai a rasar o poste, sem que Lisandro e Rodríguez conseguissem desviar.

A felicidade não quis mesmo nada com os portistas. Neste contexto, o golo de Fórlan, num 'frango' ridículo de Helton (Fernando também não está isento de culpas, pela passividade que mostrou perante a incursão do avançado uruguaio), foi o culminar de uns primeiros 45 minutos do mais inglórios que já vi. Este tipo de erros acontece a todos os guardiões, mesmo aos melhores, mas foi a segunda vez que o brasileiro comprometeu seriamente a equipa num jogo da Champions e tenho dúvidas se terá estaleca para jogar a um nível tão alto. Não escondo que tive um ataque de fúria assim que vi aquela bola a entrar por entre as suas mãos. Ir a perder para o descanso, quando o resultado mais ajustado seria à vontade uns 3 golos de vantagem, era difícil de aceitar.

Na segunda parte, embora o FC Porto não tenha exibido uma supremacia tão evidente, mais do mesmo: FC Porto à procura da igualdade e a falhar oportunidades. Lisandro esteve perto do golo por duas vezes, numa das quais falhando de forma escandalosa, após assistência de Rodríguez que o deixou na cara de Léo Franco. O FC Porto exercia forte pressão e a defesa caseira tremia por todos os lados. Um remate do meio da rua de Raúl Garcia mostrou que o Atlético ainda poderia ser perigoso, mas era ponto assente que os portistas só descansariam quando conseguissem empatar. E conseguiu-o, aos 72 minutos, numa finalização oportuna do inevitável Lisandro, respondendo a um cruzamento bem medido de Cissokho. Gostei de ver os abraços a Helton nos festejos feste golo. É também deste companheirismo que se fazem os campeões.

O jogo tornou-se mais previsível a partir desta altura e com mais incidência sobre o miolo do terreno, com um natural e ligeiro ascendente do Atlético. Simão, Fórlan e Sinama-Pongolle - entretanto entrado - ainda causaram algum perigo, mas a verdade é que nunca houve muito engenho dos comandados de Abel Resino para ultrapassar a equipa portista. O apito final era uma questão de tempo.

O FC Porto deu uma demonstração de força e personalidade. Pode causar alguns estragos nesta competição, com a sua forma de jogar directa e explosiva. É um regalo ver a excelência de algumas transições ofensivas, ainda que neste jogo os erros defensivos primários do Atlético e a rigidez do seu 4-4-2 clássico, que proporciona muitos espaços sempre que o bloco não se posiciona atrás, também tenham ajudado o FC Porto a superiorizar-se em jogo jogado. A exploração das costas dos defesas contrários foi uma constante. No entanto, acho o FC Porto muito passivo quando perde a bola, concede demasiado espaço, não pressiona convenientemente o portador da bola, deixando a equipa adversária avançar no terreno sem grande oposição. Penso que este deveria ser um aspecto a corrigir. De resto, em organização ofensiva, até gostei do jogo de posse de bola que os portistas conseguiram praticar, algo que não é, como se sabe, um dos seus maiores predicados.

Individualmente, acho que Rodríguez foi o melhor jogador em campo. Colocou a cabeça em àgua a Seitaridis com as suas infindáveis arrancadas e foi sempre um dos mais inconformados. Grande jogo do 'Cebola'. Helton esteve sempre seguro, mas aquela falha patética, a fazer lembrar o jogo com o Chelsea há duas temporadas, manchou a sua exibição. Sapunaru fez um jogo medíocre, é fraco e não tem lugar na equipa - foi pena Fucile ter tido problemas físicos que o impossibilitaram de actuar. Cissokho esteve intermitente, tendo feito coisas boas e outras menos boas. Os centrais estiveram em bom plano, dominando o espaço aéreo e revelando sempre concentração máxima. Fernando, à excepção da abordagem ao lance do segundo golo do Atlético, teve um bom desempenho. Meireles fez um jogo fantástico, defendeu e atacou com igual eficácia, valendo-se da sua cultura táctica e capacidade de passe. Lucho foi o cérebro da equipa, na primeira parte esteve soberbo, tendo caído um pouco na segunda, mas ainda a tempo de fazer uma maldade a Ujfalusi. Lisandro falhou golos que não se podem falhar, mas marcou por duas vezes e movimentou-se muito e bem, participando quase sempre assertivamente nos lances de ataque e ajudando a defender com a sua habitual abnegação. Hulk foi enorme! Quando embala torna-se quase imparável. Desequilibrou por diversas vezes a defesa 'colchonera', servindo-se da sua velocidade e potência para deixar adversários por terra. Foi dos melhores, esteve sempre em jogo e foi dos que mais contribuíram para colocar o Atlético em permanente sobressalto. Mas já li nessa blogosfera que passou ao lado do jogo... Deve ser ainda o efeito do álcool da noite carnavalesca!

O FC Porto tem tudo para passar aos quartos-de-final. É superior, está em vantagem e joga a segunda mão no Dragão perante os seus adeptos, além de que Howard Webb não será o árbitro... Será que à terceira será de vez?

domingo, 8 de fevereiro de 2009

EMPATE JUSTO


FC PORTO - BENFICA 1 - 1
1ª Liga Portuguesa 2008-09
8 de Fevereiro de 2009
Estádio do Dragão (Porto)
Árbitro: Pedro Proença (Lisboa)
FC Porto: Helton; Fucile, Rolando, Bruno Alves, Cissokho; Fernando, Raúl Meireles (Mariano González 65'), Lucho González; Lisandro (Farías 88'), Hulk, Cristian Rodríguez. Tr: Jesualdo Ferreira
Benfica: Moreira; Maxi Pereira, Luisão, Sidnei, David Luíz; Ruben Amorim, Yebda, Katsouranis, Reyes (Nuno Gomes 86'); Aimar (Carlos Martins 90'+1'), Suazo (Di Maria 62'). Tr: Quique Flores
Ao intervalo: 0 - 1
Marcadores: 0 - 1 Yebda 45'+1', 1 - 1 Lucho González 71' gp
CA: Fernando 50', Maxi Pereira 52', Katsouranis 64', Yebda 70'


Para muitos este era o desafio mais importante da temporada interna até ao momento. A expectativa era grande, a semana que antecedeu a contenda foi intensa e a infíma diferença pontual entre ambas as equipas fazia antever um jogo de nervos. A arbitragem tem feito parte da agenda quotidiana do futebol português. Todos se queixam, todos se acham prejudicados, os erros grosseiros acontecem a uma velocidade assustadora, a suspeição é atirada para o ar diariamente e, portanto, o árbitro Pedro Proença não dispunha do ambiente propício para fazer uma boa arbitragem no Dragão. É por aí que começo.

Pedro Proença fez uma má arbitragem. Cometeu três erros graves e, ainda que no resto da partida tenha estado bem (exceptuando o facto de ter permitido que metade dos 3 minutos de compensação fossem passados sem jogar), a verdade é que influenciou o normal curso do jogo e o desfecho do mesmo. Aos 18 minutos, não assinalou uma grande penalidade, por falta clara de Reyes sobre Lucho. Como se sabe, na área não há lei da vantagem e não é pelo facto de o argentino se ter levantado após o desequilíbrio provocado pelo toque de Reyes que deixa de existir falta. Aos 26 minutos, Sidnei pisa ostensiva e maldosamente Lucho, justificando-se a exibição do vermelho directo, por conduta violenta. Proença não mostrou qualquer cartão. Aos 70 minutos, assinalou uma grande penalidade inexistente, já que Yebda não cometeu qualquer falta sobre Lisandro, que se limitou a atirar para a piscina. Conclusão: o penalty que permitiu ao FC Porto restabelecer a igualdade não existiu. Mas o certo é que se o árbitro tivesse agido em conformidade anteriormente, o FC Porto poderia ter chegado aos 26 minutos a ganhar por 1-0 e a jogar contra dez unidades.

Se olharmos para a imprensa e para a generalidade da blogosfera, ficamos convencidos que o FC Porto foi beneficiado, mas analisando os lances capitais da partida com objectividade, vemos que não foi isso que sucedeu. Tem sido desta forma, parcial e tendenciosa, que o FC Porto tem sido tratado nesta temporada. É triste verificar que a comunicação social, que deveria agir com isenção, na procura da informação credível e objectiva, esteja, cada vez mais, a imbecilizar-se e a comportar-se como um verdadeiro adepto. Felizmente deixei de comprar jornais de há uns tempos a esta parte e ligo muito pouco às análises que se vão fazendo nas rádios e televisões. Anda a querer vender-se uma mentira, só porque ela é dita muitas vezes. Quem gostar de ser enganado, que acredite.

Os treinadores não apresentaram qualquer surpresa nos seus onzes. Os sistemas tácticos foram também os esperados. O FC Porto chegou a este jogo na sua máxima força, após ter feito descansar todos os habituais titulares, a meio da semana, em Alvalade. O Benfica não procedeu a tão grande poupança no desafio da Taça da Liga, diante do Guimarães, mas uma potencial maior frescura portista não se fez notar ao longo do encontro.

A primeira meia-hora foi de domínio do FC Porto e só por manifesta falta de eficácia na hora de finalizar, não se adiantou no marcador neste período. Jogando subido e pressionando alto, os pupilos de Jesualdo Ferreira empurraram os encarnados para a sua defensiva. Rodríguez foi dos mais audazes nesta fase inicial e fez várias vezes a cabeça em água ao compatriota Maxi Pereira. Lucho e Lisandro estiveram também muito activos, tanto a construir, como em zonas de finalização. O '8' portista teve mesmo na cabeça a melhor oportunidade da primeira parte, mas atirou por cima quando estava completamente isolado. O perigo rondou a baliza de Moreira em diversas ocasiões, mas os portistas revelaram-se perdulários, como já vem sendo costume nos jogos caseiros.

Apesar desta fase de algum assédio, o Benfica esteve sempre traquilo, concentrado e nunca se desuniu. Manteve sempre o bloco baixo, não permitindo ao adversário dispôr da sua melhor arma atacante - as transições rápidas - e nunca deixou de procurar contra-atacar quando havia possibilidades para isso. Reyes chegou a estar na cara do golo, mas Helton respondeu com uma grande defesa. O FC Porto foi superior na primeira parte, teve mais ocasiões para marcar e exerceu um maior domínio territorial, mas a forma adulta e personalizada como as 'águias' conviveram com essa situação, acabou por ser premiada, mesmo em cima do intervalo, com um belo golo de Yebda, de cabeça, na sequência de um canto executado por Reyes. Sem o justificar, o Benfica saiu para o intervalo em vantagem.

Na segunda parte o FC Porto continuou a ser mais dominador, mas jogou sempre com muito coração e pouca cabeça. Com o Benfica em vantagem e cada vez mais fechado, faltaram os espaços para os portistas aplicarem o seu futebol. O jogo de posse de bola nunca foi um dos pontos fortes deste FC Porto, que vivia de algumas arrancadas de Hulk (bom duelo com Moreira) e pouco mais. Os benfiquistas foram ganhando confiança e estiveram mesmo próximos de aumentar a contagem em alguns ataques rápidos, numa altura em que Aimar ía mostrando algum do perfume do seu futebol.

Di Maria já estava em campo, por troca com o esgotado Suazo. Jesualdo abriu a frente de ataque, colocando Mariano no lugar de Raúl Meireles. O jogo manteve a mesma toada de ataque contínuo e desorganizado do FC Porto, alternado com algumas investidas perigosas do Benfica. O golo do empate azul e branco haveria de surgir a 20 minutos do fim, através de Lucho González, na já descrita grande penalidade, num lance que veio repôr justiça no marcador. Após este golo, o jogo abrandou, parecendo claro que ambas as equipas, a partir de determinada altura, começaram a preocupar-se mais em não sofrer o segundo golo que em tentar chegar à vitória. Até ao apito final de Pedro Proença, poucos motivos de interesse mais há a realçar.

O FC Porto chegou a este clássico como favorito, mas a sua exibição acabou por defraudar as expectativas, tanto mais que a preparação para este jogo foi feita com especial cuidado, implicando mesmo a eliminação quase premeditada da Taça da Liga. Do lado oposto, o Benfica também não foi brilhante, mas a forma personalizada como se exibiu na casa dos tricampeões nacionais, foi uma agradável surpresa, a justificar amplamente o ponto conseguido.

Resultado justo, num clássico que não deixará saudades. Um estádio repleto com 50 110 espectadores merecia mais e melhor. O FC Porto mantém-se na liderança desta Liga Sagres, mas com a certeza de que terá de melhorar substancialmente as suas performances caseiras. A incapacidade que revela em ultrapassar defesas fechadas e bem organizadas, não augura facilidades até ao final do campeonato. O Benfica cumpriu o plano traçado para o jogo e segue na luta pelo título, mas a sua irregularidade exibicional faz-me pensar que a tarefa que se lhe depara é árdua. Aguardemos pelas próximas jornadas.

sábado, 1 de dezembro de 2007

CLASSE E TALENTO


BENFICA - FC PORTO 0 - 1
1ª Liga Portuguesa 2007-08
1 de Dezembro de 2007
Estádio da Luz (Lisboa)
Árbitro: Jorge Sousa (Porto)
Benfica: Quim; Luís Filipe, Luisão, David Luíz, Léo; Petit, Katsouranis (Cardozo 65'), Rui Costa; Maxi Pereira (Di Maria 71'), Nuno Gomes (Adu 79'), Cristian Rodríguez. Tr: José António Camacho
FC Porto: Helton; Bosingwa, Bruno Alves, Pedro Emanuel, Fucile; Paulo Assunção, Raúl Meireles (Bolatti 82'), Lucho González; Quaresma (Mariano González 69'), Lisandro, Tarik (Postiga 61'). Tr: Jesualdo Ferreira
Ao intervalo: 0 - 1
Marcador: 0 - 1 Quaresma 42'
CA: Fucile 44', Tarik 54', Katsouranis 63', Di Maria 76', Helton 87', Luís Filipe 90'+4'


Uma 'trivelada' à Quaresma resolveu o clássico dos clássicos e deixou o FC Porto ainda mais sózinho no topo da 1ª Liga, agora com sete pontos de vantagem sobre o segundo classificado. Se dúvidas ainda restassem em consciências mais crentes, o jogo da Luz veio demonstrar cabalmente qual é a melhor equipa portuguesa, marcando as devidas diferenças existentes nesta altura entre Benfica e FC Porto.

O jogo foi preparado na ressaca da jornada europeia. O Benfica, apesar de não ter cumprido o objectivo de vencer, empatara em casa com o Milan, após uma boa exibição, potenciada também por uma certa descontracção dos milaneses. Já o FC Porto saíra de Anfield Road humilhado por um resultado pesado e inaceitável, aos pés do Liverpool. De repente, parecia que o Benfica é que estava na frente do campeonato e dependia de si para seguir na Champions, tal era a euforia instalada e a confiança reinante na esmagadora maioria da imprensa lusitana. O habitual neste país.

Após as alterações no onze operadas em terras inglesas, Jesualdo Ferreira voltou a apostar na equipa-tipo portista, fazendo regressar Pedro Emanuel ao centro da defesa, por troca com o infeliz Stepanov. No restante, foi aquilo que se esperava e impunha. Nos encarnados, José António Camacho manteve os mesmos elementos que haviam defrontado o campeão europeu. Em ambos os conjuntos, acabou por não haver qualquer surpresa nas constituições iniciais.

O jogo foi bom, muito vivo e com um ritmo bastante interessante. A primeira oportunidade, logo no primeiro minuto, desperdiçada por Nuno Gomes, indiciava uma predisposição benfiquista para atacar mais e se assenhorar da partida. Puro engano. A maior classe e maturidade dos jogadores portistas começou paulatinamente a fazer-se notar. Por volta do quarto de hora, o FC Porto já marcava o ritmo e controlava as operações. Apostava numa forte pressão média, garantindo, simultaneamente, tranquilidade à sua defesa e espaço na frente para ataques rápidos e bem mecanizados.

O Benfica não conseguia fazer dois passes seguidos, jogadas bem delineadas nem vê-las. Os azuis e brancos eram mais rápidos sobre a bola, a sensação que dava é que estavam em superioridade numérica. Bosingwa não deixava Rodríguez respirar, Fucile também chegava e sobrava para Maxi Pereira (aliás, neste duelo uruguaio, o médio-ala é que andou atrás do lateral), Assunção tratava de fazer desaparecer Rui Costa. Vários duelos individuais se travaram, logicamente que foram ganhos maioritariamente por quem beneficiava de melhor organização colectiva. Na sequência das infinitas recuperações de bola, muitas vezes em terrenos supostamente mais avançados que o normal, a bola passava por Raúl Meireles, mas era aos pés de Lucho que ela desejava chegar (já nem há palavras para o futebol simples e, ao mesmo tempo, tão magnífico do internacional argentino; com maior intensidade de jogo e resistência seria certamente um dos melhores médios do mundo). Aí, bola nos extremos, que, com uma mobilidade constante, íam carrilando jogo pelas faixas, ora cruzando, ora procurando espaços interiores. Lisandro, mestre nas movimentações, ía ajudando à festa.

O futebol colectivo do FC Porto tinha já silenciado a multidão encarnada. A superioridade técnico-táctica era evidente e cheirava a 0 - 1. Tarik foi o primeiro a avisar seriamente. Seguiram-se Quaresma e Lisandro, este com uma perdida incrível na cara de Quim, após cruzamento primoroso de Bosingwa. Mas o golo não tardou: Quaresma recebe de Lucho, progride até à área, faz aquela maldade a David Luíz e atira de trivela para o fundo das redes. Com classe. Com talento. Com génio. Quando o '7' portista corria para a área, comentei com um amigo meu que me acompanhou na transmissão televisiva qualquer coisa parecida com: "Ele vai fintar para dentro e rematar de trivela"! E não é que me fez a vontade?! Obrigado Quaresma por estes momentos sublimes de talento, por contigo o futebol ir além das opções seguras e previsíveis. Intervalo, 0 - 1, resultado escasso perante tamanha superioridade.

Na segunda parte, os homens da casa apareceram melhor, como era natural. A perder em casa com direito a banho colectivo e virtualmente a sete pontos do seu opositor, competia ao Benfica correr atrás do prejuízo. Ainda assim, a primeira oportunidade nasceu de uma fífia monumental de Bruno Alves, que permitiu a Nuno Gomes aparecer isolado perante Helton. O remate foi bom mas o guardião portista fez a primeira de duas defesas providenciais.

O ascendente passou a pertencer aos pupilos de Camacho. Subiram em bloco, pressionaram mais à frente, mas notava-se que a clarividência não era a melhor. O assalto à defesa portista fez-se mais com o coração que com a cabeça. Fruto deste comportamento, o Benfica ía atacando mais, é certo, mas permitia também ataques venenosos ao adversário. Num deles, Quaresma teve nos pés a sentença final, mas rematou ao lado, após fantástica assistência de Lisandro.

Mas o Benfica cresceu, é justo reconhecer. O FC Porto passou por algumas dificuldades para cobrir o espaço à entrada da sua área, facto a que não será alheia a entrada de Cardozo, que obrigou Assunção a recuar um pouco. Após mais um falhanço de Nuno Gomes, agora de cabeça (assim é difícil ser considerado um grande avançado), o recém-entrado Adu proporcionou a tal sensacional segunda parada a Helton, com um remate seco à entrada da área. Petit, logo a seguir, também tentou a sorte de longe e a bola passou bem perto do poste.

Inteligentemente, Jesualdo lançou Bolatti para junto de Assunção e este foi o rombo final nas aspirações benfiquistas. Não mais o FC Porto passou por sobressaltos, voltando àquela atitude inteligente, controladora, madura, eficaz. Bastou segurar a bola e deixar o tempo correr até ao minuto 94. E que doloroso deve ter sido para o Benfica passar a quase totalidade dos 4 minutos de compensação a cheirar a bola.

Se há jogos cuja justiça do resultado não merece sequer discussão, este foi seguramente um deles. O FC Porto deu uma demonstração de força em plena capital, de superioridade em relação ao seu principal rival e de capacidade reactiva depois da goleada sofrida em Anfield. As grandes equipas são assim, levantam-se depressa e são capazes de triunfar nos ambientes mais hostis.

Lisandro foi o melhor jogador em campo. Apesar de não ter facturado, movimentou-se muito e bem, correu que se fartou, ora em busca de espaços, ora pressionando os adversários, e lançou o pánico na defesa encarnada por diversas ocasiões. É admirável ver como um jogador tão bom tecnicamente e tão goleador, participa de forma tão solidária no trabalho colectivo. Quaresma decidiu com o seu talento ímpar. Tarik realizou uma óptima primeira parte. Nesse período, Lucho também esteve soberbo. Assunção é aquele pêndulo indispensável que não sabe jogar mal. Pedro Emanuel foi o patrão da defesa, conferindo ao sector serenidade e experiência. Helton foi decisivo naquelas duas intervenções. Meireles, Bosingwa, Fucile, Bolatti, enfim, quase todos os 'dragões' estiveram bem. Talvez Bruno Alves, Postiga e Mariano tenham estado uns furos abaixo, por diferentes razões, mas nada que abalasse a vitória incontestável. No Benfica, Rui Costa foi mesmo o menos mau. Adu, no pouco tempo que teve para se mostrar, reclamou mais tempo de jogo e quem sabe a titularidade em alguns encontros. No duelo de treinadores, Jesualdo goleou Camacho. A organização colectiva do FC Porto não foi obra do acaso, nem resultou unicamente do facto de deter melhores intérpretes. Há ali muito cunho pessoal do Professor, os meus parabéns também para ele, tantas vezes injustiçado, a maioria delas pelos próprios portistas.

O árbitro portuense Jorge Sousa, esteve mal ao não assinalar um penalty escandaloso, por derrube de David Luíz a Lisandro, logo aos 13 minutos, lance que resultaria no segundo amarelo ao brasileiro. Acabou por não influenciar o curso do jogo graças à supremacia azul e branca.

É cedo para se fazerem as contas do campeonato. Muito cedo. Mas sete pontos de avanço em doze jornadas e atendendo à diferença patente de qualidade que separa os portistas dos demais...

domingo, 26 de agosto de 2007

BURRICE E INTELIGÊNCIA


FC PORTO - SPORTING 1 - 0
1ª Liga Portuguesa 2007-08
26 de Agosto de 2007
Estádio do Dragão (Porto)
Árbitro: Pedro Proença (Lisboa)
FC Porto: Helton; Bosingwa, Bruno Alves, Pedro Emanuel, Fucile; Paulo Assunção, Raúl Meireles (Mariano González 67'), Lucho González; Tarik (Postiga 46'), Lisandro (Bolatti 85'), Quaresma. Tr: Jesualdo Ferreira
Sporting: Stojkovic; Abel (Yannick Djaló 76'), Tonel, Anderson Polga, Ronny (Pereirinha 76'); Miguel Veloso, João Moutinho, Izmailov (Vukcevic 62'), Romagnoli; Derlei, Liedson. Tr: Paulo Bento
Ao intervalo: 0 - 0
Marcador: 1 - 0 Raúl Meireles 53'
CA: Quaresma 33', Derlei 53', Tonel 54', Anderson Polga 73', Bosingwa 86', Helton 90'+4'


Um golo de pura inteligência, resultante de um lance de pura burrice, definiu o resultado do clássico. Com exactamente 49.709 pessoas nas bancadas do Dragão e o ambiente ao rubro, o FC Porto de Jesualdo Ferreira derrotou, enfim, o Sporting de Paulo Bento, depois de nas três anteriores partidas entre ambas as equipas se terem registado um empate e duas vitórias leoninas. O FC Porto está agora na frente do campeonato, conjuntamente com o Marítimo, dispondo já de três e quatro pontos de vantagem sobre Sporting e Benfica, respectivamente.

Ao contrário do que sucedera na Supertaça, o jogo foi bom, dinâmico, emotivo e, embora nem sempre bem jogado, o espectáculo valeu a pena. A vitória assenta bem aos campeões nacionais. Fizeram mais pelos três pontos e mereceram-nos inteiramente. A uma primeira parte de domínio portista, respondeu o Sporting com maior ascendente na etapa complementar. A diferença é que os 'leões' se mostraram passivos e impotentes na fase de assédio portista, coisa que não aconteceu com o FC Porto que, mesmo no período em que sofreu maior pressão, nunca deixou de contra-atacar e mostrar-se ameaçador. No cômputo geral, os 'dragões' foram superiores, tiveram mais oportunidades claras de golo, incluindo a mais flagrante de todas, num livre à Quaresma que embateu na trave.

Jesualdo lançou Tarik para a titularidade, em detrimento do esperado Postiga, naquela que foi a única surpresa dos onzes iniciais. Embora tenha torcido um pouco o nariz quando soube desta escolha, não posso deixar de reconhecer que o marroquino efectuou uma exibição interessante, apesar de intermitente. Foi ele que criou as duas primeiras jogadas de grande perigo, ao arrancar pela esquerda em drible e cruzar para a área: na primeira ninguém acorreu ao cruzamento e na segunda Lucho, bem enquadrado com a baliza, rematou muito ao lado. Foi este o mote para a superioridade portista nos primeiros 45 minutos. Servindo-se de um meio-campo incansável na recuperação da bola e esclarecido na hora de construir, o FC Porto exerceu forte pressão sobre a defensiva sportinguista, chegando inúmeras vezes com perigo junto da baliza de Stojkovic.

O único ponto menos positivo nesta fase foi mesmo a falta de alguém na área leonina, facto normal se tivermos em conta que Lisandro desceu diversas vezes para importunar Miguel Veloso e não deixar repetir a superioridade numérica do Sporting a meio-campo acontecida na temporada passada. A verdade é que Assunção, Meireles e Lucho 'engoliram' autenticamente Moutinho, Izmailov e Romagnoli, proporcionando algumas jogadas de ruptura aos seus extremos e mantendo os seus defensores num mar de tranquilidade. O único apontamento que se viu ao Sporting foi um remate venenoso de João Moutinho de longa distância ao lado do poste, isto já depois de Quaresma ter, como disse, apontado superiormente um livre contra a trave, mais ou menos da zona onde havia marcado o portentoso golo da vitória em Braga. Onde será que acaba o talento do '7' azul e branco? Esta toada só abrandou nos últimos dez minutos, altura em que o Sporting conseguiu sacudir o aperto e subir um pouco no terreno, até ao descanso. Intervalo, 0 - 0, com o FC Porto a justificar a vantagem mas sem o conseguir.

Para o segundo tempo, Jesualdo fez entrar Postiga - bom jogo do mal-amado - para o lugar de Tarik, derivando Lisandro para uma das alas. Paulo Bento optou por não mexer na equipa, mas deve tê-lo feito com a cabeça dos jogadores, pois o Sporting surgiu transformado e entrou a todo o gás, com três boas situações em três minutos, apesar de não muito flagrantes: cabeceamento de Derlei para defesa de Helton, remate de Abel para nova intervenção do internacional brasileiro e novo remate de Derlei por cima, este do meio da rua. Mas o FC Porto, tal como referi, nunca se deixou encostar demasiado às cordas e respondeu à letra com um grande remate de Postiga para defesa de Stojkovic, seguido de recarga de Quaresma por cima. O jogo estava mais vivo e atractivo e sentia-se agora que qualquer equipa podia marcar.

Aos 52 minutos, o lance que decidiu o jogo: Postiga e Polga atacam uma bola morta, o central chega primeiro e, retirando a bola da frente do avançado com um simples esticar da perna, atrasa a bola na direcção de Tonel, que abre as pernas e a deixa seguir até Stojkovic. Inocente e incompetente (burro?), o guardião sérvio, com todo o tempo do mundo para pensar o que fazer, agarra a bola (!), para desespero de Paulo Bento, bem documentado nas imagens televisivas. O árbitro fez o que lhe competia e o que está determinado nas regras, marcando livre indirecto contra o Sporting sobre a linha de pequena área. Lucho 'El Comandante' González assume a marcação do lance e, quando toda a gente esperava um passe na frente para Quaresma, o argentino surpreende e toca atrás para Raúl Meireles, que fulmina a baliza do Sporting com um tiro indefensável. 1 - 0, o Dragão em apoteose e a justiça no marcador estabelecida.

O FC Porto continuou por cima durante mais alguns minutos, até que Bento trocou Izmailov por Vukcevic, respondendo Jesualdo com a entrada de Mariano por Meireles. E foi aqui que o decurso do jogo se alterou. Sem Meireles, o meio-campo portista ressentiu-se, perdeu capacidade de pressing, deixou de fazer a transição para o ataque de forma adequada e o Sporting aproveitou para subir as suas linhas e colocar a defensiva portista em sobressalto. Foi um erro trocar um trabalhador refinado por um médio tão ofensivo e sem espírito lutador, ainda mais a ganhar. Esta é a prova de que nem sempre a atitude mais ousada é a mais inteligente (esta é para os que apelidam Jesualdo de medroso). A luta do meio-campo ficou irremediavelmente perdida. Claro que, face à subida esperada do Sporting, até poderia ser bem pensado colocar um homem mais rápido e afoito, na tentativa de apanhar os 'leões' em contrapé e aumentar a vantagem. Só que o próprio andamento do jogo originou um efeito contrário e logicamente que depois de tudo acontecer é mais fácil falar!

A baliza de Helton estava agora ameaçada e Paulo Bento jogou mais uma cartada, retirando os laterais, fazendo entrar Pereirinha e Djaló e recuando Veloso, passando assim a jogar em algo parecido com um 3-5-2. Foi uma aposta arrojada e que possibilitou um domínio territorial ainda maior, embora as ocasiões claras de golo se resumam a um remate cruzado de Moutinho ao lado e uma bola que Helton deixou escapar das mãos perigosamente. Veio o final do jogo e estava consumado o fim da série de 26 jogos sem perder da turma sportinguista, perante um adversário superior e que fez por merecer o triunfo.

Quanto ao trabalho do árbitro, ao contrário do que se tem ouvido e lido em alguma comunicação social e também por aqui na blogosfera, não teve influência no resultado. No lance capital, decidiu como se impunha, já que Polga teve clara intenção de, cortando a bola, a direccionar a um companheiro e manter a posse da mesma na sua equipa. Os únicos equívocos foram a não amostragem de alguns cartões amarelos a jogadores de ambas as equipas e as não expulsões de Quaresma (ainda assim, viu o amarelo), primeiro, e Derlei, já perto do fim. Apesar de tudo, num jogo bastante difícil de dirigir, nota positiva para Pedro Proença.

No FC Porto, destaque maior para o trio de centrocampistas, Tarik nos primeiros minutos e para o talento de Quaresma, a espaços. Bosingwa alternou boas iniciativas com alguns 'rodriguinhos' na defesa (já vistos na Supertaça) perfeitamente escusados. No Sporting, após uma primeira parte de apagamento colectivo, emergiram Veloso, Moutinho, Derlei e Liedson. Vukcevic esteve bem no tempo em que jogou e Tonel foi o melhor do sector mais recuado. FC Porto na frente da liga, ou seja, como diz Bosingwa, "regresso à normalidade", porque isto de ter "os adversários a olhar para cima" é como lavar os dentes!

domingo, 12 de agosto de 2007

IZMAILOV E PAIXÃO


FC PORTO - SPORTING 0 - 1
Supertaça Nacional 2007-08
11 de Agosto de 2007
Estádio Dr. Magalhães Pessoa (Leiria)
Árbitro: Bruno Paixão (Setúbal)
FC Porto: Helton; Bosingwa, Bruno Alves, Pedro Emanuel, Fucile; Paulo Assunção (Leandro Lima 84'), Raúl Meireles (Mariano González 78'), Cech (Kazmierczak 74'); Quaresma, Adriano, Lisandro. Tr: Jesualdo Ferreira
Sporting: Stojkovic; Abel, Tonel, Anderson Polga, Pedro Silva (Ronny 11'); Miguel Veloso, João Moutinho, Izmailov, Romagnoli (Gladstone 87'); Derlei (Yannick Djaló 87'), Liedson. Tr: Paulo Bento
Ao intervalo: 0 - 0
Marcador: 0 - 1 Izmailov 76'
CA: Paulo Assunção 2', Pedro Emanuel 10', Abel 17', Anderson Polga 59', Mariano González 86', Derlei 87', Liedson 90'+3'


Está entregue o primeiro título da temporada. Perante cerca de 22 mil espectadores, o Sporting conquistou a Supertaça Cândido de Oliveira, ontem à noite, em Leiria. Derrotou o campeão FC Porto por 1 - 0 e fez a festa de mais uma importante conquista, iniciando assim da melhor forma uma época que se adivinha longa e difícil. O espectáculo foi pobre, próprio desta fase ainda embrionária, embora fosse de esperar um pouco mais de qualidade de duas formações com responsabilidades no futebol português. Vi o jogo e não gostei, ponto!

A que se deveu este resultado desfavorável aos 'dragões'? Basicamente a quatro razões: à pouca audácia/ambição de Jesualdo Ferreira na abordagem ao jogo, que se manteve enquanto perdurou o empate; à falta de sorte, materializada em duas bolas ao poste; a um momento fantástico de inspiração do russo Izmailov, que resultou no único golo da partida; e, por último, a um erro do árbitro Bruno Paixão que, ao não assinalar um penalty claro por mão de Tonel na área, prejudicou os portistas e influenciou directamente o desfecho da competição. Mas vamos lá por partes.

Mal tive conhecimento da constituição dos onzes iniciais, não pude deixar de ter um mau pressentimento, com a colocação de Cech no miolo do terreno. Por que razão continua Jesualdo Ferreira a insistir, por vezes, neste jogador para o sector médio, sabendo-se da sua pouca dose de criatividade e capacidade para pensar o jogo? É com um meio-campo formado por três homens de características defensivas que Jesualdo quer ganhar as partidas? É assim que quer colocar em prática o seu discurso ambicioso? Que provas mais ainda precisa o professor para perceber que Cech como centrocampista não resulta (estou-me a lembrar, por exemplo, do banho que levamos em Londres, do Arsenal , na época passada)? Um clube como o FC Porto, campeão europeu e mundial recentemente, não pode jogar sem um armador de jogo, um '10', um pensador competente do futebol ofensivo. Se Leandro Lima é demasiado imaturo, então que se volte ao mercado urgentemente. Ou então que se teste um tecnicista como Mariano González nessa posição. Faltou Lucho González? Sim, é verdade, mas não sei se o argentino resolverá esse défice de imaginação, como sabemos ele é um médio de transição de eleição, mas não um 'playmaker'. Concebo Lucho a fazer de '10' apenas em jogos mais difíceis, talvez fora de casa na Champions, mas só. Ou seja: o meio-campo do FC Porto deve ter UM médio-defensivo (Assunção, Bolatti, Kaz, Meireles), UM médio de transição (Lucho, Meireles, Kaz) e UM médio-ofensivo (Leandro, Mariano ou... mercado!). Há aqui muitas combinações plausíveis, só é preciso é não inventar, não colocar os jogadores fora da posição, não ser medroso, perceber a grandeza deste clube. Jesualdo, arrepia caminho e repensa opções, senão um mau bocado se aproxima.

Paulo Bento apresentou a equipa esperada, procedendo apenas à adaptação de Pedro Silva a lateral-esquerdo, confirmando a pouca confiança em Ronny, sobretudo no aspecto defensivo, até porque pela frente se apresentavam Quaresma e Lisandro.

O jogo pautou-se sempre pelo equilíbrio, com as defesas a superiorizarem-se quase sempre aos ataques e com muita pressão de ambas as equipas sobre o portador da bola. O que deu origem a um jogo feio, pouco fluído, com muitos passes errados e escassas jogadas com princípio, meio e fim. Ainda assim, o FC Porto teve um ligeiro ascendente e andou mais tempo próximo da área leonina, nomeadamente através das subidas de Fucile - muito bom jogo do uruguaio - e de algumas arrancadas de Quaresma. Além de dois ou três cruzamentos de relativo perigo, enviou duas bolas ao poste da baliza de Stojkovic, uma de Quaresma e outra de Kazmierczak, entrado na segunda parte, esta logo após o golo sportinguista. Golo que apareceu aos 76 minutos, sem que nada o justificasse, na sequência de um pontapé explosivo de Izmailov de fora da área, com Assunção a ver jogar. Um momento de grande espectáculo, a provar que este médio vindo do frio é mesmo um reforço de peso. Estava visto que a sorte estava do lado do Sporting. Apesar de o FC Porto ter feito um jogo medíocre, chegou para ser superior ao adversário e para justificar um resultado diferente. Apesar de Stojkovic não ter efectuado uma defesa digna desse nome, os postes foram seus fiéis aliados.

Por falar em aliados... O árbitro da partida foi Bruno Paixão, o tal de Campo Maior. Quando o Tonel meteu a mão à bola no interior da área, eu vi, os jogadores viram e o público, a avaliar pela reacção vinda da bancada, também não teve dúvidas. Admito que Paixão não tenha visto (assim como o árbitro-assistente), admito que tenha visto mas tenha considerado bola na mão (o que é grave pois foi mão na bola indiscutível), admito que tenha sido um aliado apenas acidental. Mas que foi aliado foi. Que prejudicou o FC Porto e teve influência directa no resultado, não há dúvida. Que a Supertaça podia estar no Dragão caso ele tivesse marcado a grande penalidade que se impunha, isso podia. O que não diriam os Velhos do Restelo deste país se o lance tivisse sido o contrário? Isso todos sabemos. Nem são os erros arbitrais que mais revoltam, porque equívocos todos cometem e nunca hão-de acabar, ora a favor ora contra, hão-de continuar a existir. O que revolta é o tratamento que se dá a esses erros, consoante a cor das camisolas. O que revolta é a certeza de que a associação gratuita que se faz entre o processo 'Apito Dourado' e o FC Porto, está objectivamente a prejudicar o clube dentro das quatro linhas.

É por isso que vamos ser campeões novamente, revelando o nosso espírito de conquista e união absolutamente inigualáveis em Portugal. Doa a quem doer.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

BRASIL À EUROPEIA


BRASIL - ARGENTINA 3 - 0
Final da Copa América 2007
15 de Julho de 2007
Estádio Pachencho Romero (Maracaibo)
Árbitro: Carlos Amarilla (Paraguai)
Brasil: Doni; Maicon, Alex, Juan, Gilberto; Mineiro, Elano (Daniel Alves 33'), Josué, Júlio Baptista; Robinho (Diego 89'), Vágner Love (Fernando 88'). Tr: Dunga
Argentina: Abbondanzieri; Javier Zanetti, Ayala, Gabriel Milito, Heinze; Mascherano, Verón (Lucho González 65'), Cambiasso (Aimar 58'), Riquelme; Tévez, Messi. Tr: Alfio Basile
Ao intervalo: 2 - 0
Marcadores: 1 - 0 Júlio Baptista 4', 2 - 0 Ayala 40' pb, 3 - 0 Daniel Alves 68'
CA: Alex 36', Mascherano 41', Doni 50', Gilberto 54', Júlio Baptista 66', Tévez 75, Josué 81'


O Brasil venceu a pobre Copa América pela quinta vez nos últimos dez anos, acentuando ainda mais o seu domínio no panorama do futebol sul-americano. Na final, a selecção canarinha deu uma imagem bem diferente da que patenteou durante toda a competição e, contra todos os prognósticos, derrotou a poderosa Argentina por claros 3 - 0.

Dunga e Basile apresentaram para o jogo decisivo dois sistemas semelhantes, assentes num 4-4-2 em losango no meio-campo. Ambos os losangos constituídos por um médio-defensivo (Mineiro e Mascherano), dois interiores, dos quais um (Josué e Cambiasso) mais conservador que o outro (Elano e Verón) e um médio-ofensivo (Júlio Baptista e Riquelme). Com os dois esquemas perfeitamente encaixados no sector médio, tornava-se evidente que, para além da dinâmica colectiva e da própria inspiração individual dos jogadores, quem conseguisse catapultar os seus laterias com mais intensidade para o ataque, poderia levar vantagem sobre o rival. Ora Maicon e Gilberto fizeram exibições de grande nível, o mesmo já não se poderá dizer de Zanetti e Heinze...

Apesar de o 'escrete' ter estado melhor e ter justificado inteiramente a vitória, a verdade é que a sorte esteve do seu lado, pois começou o desafio praticamente a ganhar e pode agradecer a Deus não ter consentido o empate logo a seguir. Aos 4 minutos, Maicon lança longo para Júlio Baptista que se desembaraça de Ayala e atira cruzado para as redes de Doni. Um grande golo que poderia ter sido imediatamente anulado, mas Riquelme atirou ao poste, após bela iniciativa de Messi e assistência de cabeça de Verón. Dizem que Deus é brasileiro e pela amostra começo a acreditar seriamente nessa possibilidade (não esquecer a meia-final frente ao Uruguai através das grandes penalidades).

A Argentina tem então um período em que se instala no meio terreno contrário, embora sem nunca conseguir ser perigosa nem mostrar um futebol ligado e fluído. Vivia apenas de algumas arrancadas de Messi, que também cedo mostrou não estar nos seus melhores dias. Mas mesmo este domínio territorial foi sol de pouca dura. A partir do quarto de hora, o Brasil começa positivamente a mandar no jogo. Revelando grande maturidade táctica, controlo emocional, superior solidariedade colectiva e maior entrega ao jogo e vontade de vencer, talvez espicaçados pela crítica feroz de que foram alvo, os comandados de Dunga arrancaram para uma exibição inteligente e pragmática, bem ao estilo do que hoje exige o futebol moderno, bem à imagem do futebol europeu virado para o resultado. Mineiro secava Riquelme, Elano e Josué exibiam grande disponibilidade para percorrer quilómetros no meio-campo e os laterais Maicon e Gilberto aproveitavam as autênticas avenidas abertas pela passividade adversária. Os argentinos denotavam lentidão, não pressionavam convenientemente o portador da bola, pelo contrário, eram eles os próprios a serem envolvidos pelos brasileiros, levando ao desaparecimento progressivo de homens como Riquelme, Messi ou Tévez. E quando o conjunto não funciona, não há ligação entre os diferentes sectores, parece que existe um espaço enorme entre cada elemento, cada um votado à sua sorte, sem apoio nem alternativa, por mais que a sua vontade seja a de ajudar a equipa.

Quando o jogo estava morno, sem grandes oportunidades de golo e com poucos motivos de interesse, Riquelme resolve dar um pontapé na monotonia e lá conseguiu criar um momento de aperto junto da baliza canarinha, com um belo remate à entrada da área, tendo valido a apurada elasticidade de Doni. Todavia, pouco depois, com a eficácia de que já falei, o Brasil aumenta para 2 - 0 e dá mais uma machadada na confiança alvi-celeste. E foi logo com um autogolo de Ayala para a depressão ser ainda maior. Mérito para o cruzamento de Daniel Alves, entretanto entrado para o lugar de Elano, e que se revelou uma aposta ganha do técnico brasileiro.

Chegou o intervalo e reclamei para mim a entrada de Crespo, na tentativa de abrir a frente de ataque argentina. A perder por duas bolas, era hora de Basile arriscar tudo para os derradeiros 45 minutos e alterar o sistema para uma matriz mais arrojada. Mas tal não aconteceu e o onze argentino manteve-se o mesmo para a segunda metade! Primeiros dez minutos e nada de novo aconteceu: Argentina perdida e desligada, Brasil motivado, dono e senhor do jogo. Cambiasso e Verón eram incapazes de assegurar a transição ofensiva, Riquelme jogava completamente parado e era engolido pelos incansáveis brasileiros. Aliás, abro aqui um parênteses para dizer que está justificado o facto de o melhor jogador a actuar na América do Sul não ter vingado numa equipa de topo europeu como o Barcelona e ter tido necessidade de descer para o Villarreal. O homem está desfasado daquilo que é o futebol actual, brilha no continente americano pois lá joga-se um futebol sem velocidade, onde importa a capacidade técnica e nunca a dinâmica e velocidade de jogo.

Aos 58 minutos, o seleccionador argentino, que nunca antes havia perdido um encontro da Copa América, lá se decidiu por lançar sangue novo na sua equipa: troca Cambiasso por Aimar e, mais tarde, Verón por Lucho. Apesar de ter conferido um cariz ligeiramente mais ofensivo ao seu conjunto, o certo é que Basile trocou jogadores de posições idênticas e não alterou o sistema, mantendo o 4-4-2, quando a meu ver se impunha um 4-3-3 com Tévez, Crespo e Messi na frente, ou mesmo um 3-3-4 com o acrescento de Diego Milito pela saída de um defesa (possivelmente o desastrado Gabriel Milito, já que Heinze fecha bem ao meio). Não foi o que aconteceu e a Argentina nunca se encontrou, tendo realizado uma péssima exibição durante todo o segundo tempo. O Brasil apostava agora em contra-ataques rápidos e sempre venenosos. Num deles, o mal-amado Vágner Love isola Daniel Alves com uma assistência soberba, tendo o (ainda) sevilhano desferido um certeiro remate ao poste mais distante. 3 - 0!

Pouco depois, o apito final do paraguaio Carlos Amarilla. A inteligência quase científica da selecção de Dunga, o pragmatismo, a eficácia e a mentalidade vencedora imposta aos jogadores canarinhos (qual equipa europeia), acabavam de arrasar a melhor selecção da Copa América, quer em futebol jogado até aí, quer em quantidade de estrelas por metro quadrado. A forma como o Brasil se exibiu fez-me lembrar o FC Porto campeão europeu de José Mourinho e não foi em vão. O Brasil fez a festa justamente.

O portista Helton, mesmo sem ter actuado, e o prodígio Anderson são campeões sul-americanos. Um título de importância relativa quando comparado com o título europeu ou mundial, mas certamente muito saboroso para a selecção brasileira, mais a mais olhando aos incessantes ataques de que foi vítima pelos seus próprios compatriotas dos mais diversos quadrantes. A Argentina foi a melhor equipa presente na Venezuela, mas o Brasil é o campeão, com Robinho a ser o melhor jogador e o melhor goleador com 6 tentos apontados. E o que é que fica para a história?

sexta-feira, 25 de maio de 2007

MILAN: O REI DA EUROPA


MILAN - LIVERPOOL 2 - 1
Final da Liga dos Campeões 2006-07
23 de Maio de 2007
Estádio Olímpico (Atenas)
Árbitro: Herbert Fandel (Alemanha)
Milan: Dida; Oddo, Nesta, Maldini, Jankulovski (Kaladze 80'); Pirlo, Gattuso, Ambrosini, Seedorf (Favalli 90'+1'); Kaká, Filippo Inzaghi (Gilardino 88'). Tr: Carlo Ancelotti
Liverpool: Reina; Finnan (Arbeloa 87'), Carragher, Agger, Riise; Mascherano (Crouch 78'), Xabi Alonso, Pennant, Zenden (Kewell 58'); Gerrard, Kuyt. Tr: Rafael Benítez
Ao intervalo: 1 - 0
Marcadores: 1 - 0 Filippo Inzaghi 45', 2 - 0 Filippo Inzaghi 82', 2 - 1 Kuyt 89'
CA: Gattuso 40', Jankulovski 54', Mascherano 58', Carragher 60'


O Milan é o novo rei da Europa do futebol, sucedendo ao Barcelona como vencedor da Liga dos Campeões, após a vitória por 2 - 1 sobre o Liverpool, na capital grega. Numa final nem sempre bem jogada mas muito emotiva, emergiu o conhecido cinismo italiano, que faz com que os transalpinos vençam jogos mesmo sendo inferiores ao adversário em futebol jogado. Foi isso que sucedeu ontem. Mesmo vendo o Liverpool normalmente mais perto da sua baliza e tendo rematado bem menos que os ingleses, o Milan serviu-se da sua tradicional eficácia para conquistar o seu sétimo título continental de clubes, ficando a dois do Real Madrid. Depois da épica final perdida para os 'reds' em 2005, a vingança serviu-se fria, com um bis de Filippo Inzaghi, atacante que faz do aproveitamento a sua principal arma.

Carlo Ancelotti dispôs a equipa no seu habitual modelo conservador de 4-4-1-1, com Pirlo a médio defensivo, Gattuso e Ambrosini como carregadores dos talentosos, Seedorf a médio mais ofensivo e Kaká atrás do atacante Inzaghi. Já Rafa Benítez, certamente lembrado do descalabro do Manchester United em San Siro, apostou num reforço do meio-campo com Xabi Alonso, fazendo Gerrard avançar (quanto a mim demasiado) no terreno para as costas de Kuyt, mantendo as alas entregues a Pennant e Zenden. Isto é, manteve o rígido 4-4-2 do costume, mas menos arrojado do que aquilo que vulgarmente acontece.

O Liverpool começou melhor a partida, instalando-se desde logo no meio terreno italiano e com uma bela dinâmica de trocas de bola ao longo dos primeiros cinco minutos. O Milan, servindo-se da mestria de Pirlo e da velocidade de transição de Seedorf, responde a propósito e chega também junto da área de Reina, mantendo os ingleses em constante alerta. Notava-se, contudo, maior disponibilidade para pressionar e sair rápido para o ataque por parte do Liverpool. Aos nove minutos, Pennant tem nos pés a primeira situação de golo, negada superiormente pelo brasileiro Dida. Kaká respondeu pouco depois com um remate fraco de longa distância, fácil de parar por Reina.

Num jogo bastante táctico e com as pedras encaixadas, o Liverpool continuou sempre mais ameaçador, mas sem nunca perder os seus equilíbrios defensivos. Ao mesmo tempo que Mascherano encostava em Kaká, levando ao apagamento da estrela canarinha, Pennant seguia provocando alguns estragos junto da defensiva contrária, como aos 22 minutos em que serviu Gerrard para este rematar por cima da trave. Aos 26, nova jogada de envolvimento dos ingleses, culminada com um perigoso remate rasteiro de Xabi Alonso a rasar o poste. Riise teve também hipótese de testar o seu poderoso pontapé, mas a pontaria não estava calibrada.

À velocidade no jogo inglês, o Milan ripostava com um futebol mais lento e elaborado, apostando sobretudo nas diversas subidas dos seus laterais, cujos cruzamentos se revelaram neste encontro inconsequentes. Mesmo assim, Oddo foi dos que mais tentaram criar desequilíbrios pela sua banda direita. Aos 35 minutos, Maldini comprometeu com uma perda de bola em zona proibida (o capitão cometeu algumas falhas), originando uma flagrante chance para Kuyt inaugurar o marcador, valeu o corte em esforço de Nesta.

Quando já se esperava pelo descanso, Kaká ganha uma falta mesmo à entrada da área, numa das poucas oportunidades em que se conseguiu libertar da marcação. O especialista Pirlo bateu o livre, levando a bola a desviar no corpo de Inzaghi e encaminhar-se para a baliza do impotente Reina, traído pela mudança de direcção da mesma. Sem que nada tivesse feito para o justificar, o Milan via-se em vantagem apenas ao segundo remate efectuado, para gáudio dos milhares de 'tiffosi' presentes nas bancadas.

Na segunda parte, o Liverpool não entrou tão forte como seria de esperar para uma equipa que corria atrás do resultado, não tendo disposto de qualquer situação de perigo nos primeiros 15 minutos. Aliás, nesse período, Pirlo voltou a ter um livre à disposição, mas desta vez a bola saiu por alto. Só aos 62 minutos, Gerrard voltou a importunar Dida, tendo surgido desmarcado sobre o lado esquerdo mas rematando fraco e à figura. O Liverpool começou a atacar com mais homens, deixando a sua defesa à mercê dos possíveis contra-ataques do Milan, muitas vezes fatalmente venenosos. Não existia outra alternativa e sinceramente, perante o que ía acontecendo no Olímpico de Atenas, o Liverpool já merecia outro tipo de resultado. Riise voltou a tentar de longe, sendo imitado por Gerrad poucos instantes depois, sem sucesso.

A festa era milanesa, ganhando outra dimensão quando, aos 82 minutos, Kaká isolou Inzaghi, que não teve dificuldade em passar por Reina e fazer o 2 - 0. A frieza do futebol italiano voltou a fazer das suas e a Liga dos Campeões ficou aí praticamente decidida. Mas o Liverpool continuou a revelar grande espírito de luta e, já depois de Crouch ter ameaçado com um forte remate à entrada da área, conseguiu mesmo reduzir a diferença, na sequência de um canto, por intermédio de Kuyt. Não havia tempo para mais e, após o apito de Fandel, os festejos foram intensos por parte dos milaneses, coisa várias vezes vista desde que me lembro de ver futebol.

Talvez o Liverpool tivesse feito por merecer a vitória, mas o futebol não se compadece com justiça ou injustiça e ganha quem revelar maior capacidade de concretização. Inzaghi, letal, mostrou que a idade não é um problema quando a qualidade e disponibilidade se mantêm intactas, tendo-se cotado como o melhor jogador desta final. Kaká, muito discreto durante os 90 minutos, acabou por ser determinante, ao ganhar a falta de que resultou o primeiro golo e ao fazer a assistência para o segundo. Pelos 'reds', Gerrard e Pennant foram os que mais fizeram para que o desfecho fosse outro, tendo também Mascherando sido importante na acção pressionante sobre Kaká.

O Milan sagrou-se assim campeão europeu pela sétima vez na sua história, somando o seu 15º troféu internacional, entre Taças/Ligas dos Campeões, Taças das Taças, Supertaças Europeias e Taças Intercontinentais. Palmarés impressionante de um clube grandioso! Ontem, quem recebeu a taça das mãos de Michel Platini foi o grande capitão Paolo Maldini, defesa italiano que somou o seu 5º título europeu em 8 finais disputadas. Sem dúvida, um dos maiores nomes do futebol mundial de todos os tempos. Parabéns a Maldini! Parabéns ao Milan! A Europa está aos seus pés!

segunda-feira, 21 de maio de 2007

CAMPEÕES CAMPEÕES CAMPEÕES!!


FC PORTO - AVES 4 - 1
1ª Liga Portuguesa 2006-07
20 de Maio de 2007
Estádio do Dragão (Porto)
Árbitro: Olegário Benquerença (Leiria)
FC Porto: Helton (Vitor Baía 86'); Bosingwa, Pepe, Bruno Alves, Fucile; Raúl Meireles, Lucho González (Cech 85'), Anderson (Jorginho 65'); Lisandro, Adriano, Quaresma. Tr: Jesualdo Ferreira
Aves: Nuno; Sérgio Carvalho, William, Sérgio Nunes, Pedro Geraldo; Mércio (Octávio 88'), Jorge Ribeiro, Jocivalter (Dill 58'), Artur Futre (Leandro 71'); Moreira, Paulo Sérgio. Tr: Neca
Ao intervalo: 1 - 1
Marcadores: 1 - 0 Adriano 27', 1 - 1 Moreira 34', 2 - 1 Lisandro 52', 3 - 1 Jorge Ribeiro 59' pb, 4 - 1 Lisandro 89'
CA: Mércio 18', William 47', Bruno Alves 76'


O FC Porto é bi-campeão nacional de futebol. Numa tarde de emoções extremas como há muito não se via no nosso campeonato, a turma orientada por Jesualdo Ferreira aguentou a pressão e superiorizou-se aos rivais da capital, garantindo o 22º título da sua gloriosa e secular história. Uma vitória gorda por 4 - 1 sobre o Aves, acabou por garantir este feito, após uma semana de grande discussão em redor da real valia da equipa azul e branca e do seu treinador. Goste-se ou não, Jesualdo Ferreira foi o grande vencedor desta 1ª Liga 2006-07, tendo lutado contra diversas contrariedades e exibindo um fortíssimo carácter. Podem continuar a apontar-lhe as portas da rua (o mais certo é alguns meterem agora a violinha no saco!), a dizer que não possui competências de líder, a negar-lhe falta de capacidade de motivação e empolgamento, a lembrar os erros técnicos por si cometidos, mas este título nacional, o primeiro da sua longa carreira, já ninguém lho tira. A faixa de campeão é dele!

O jogo com o Aves foi intenso. Por estar a trabalhar, não me foi possível seguir as suas incidências nem ao vivo nem pela TV, pelo que voltei aos longínquos dias da rádio, aos saborosos dias da rádio. Ouvi o relato atentamente e os nervos estiveram à flôr da pele, que sofrimento!

Os primeiros 10 minutos não foram os esperados e a equipa portista não se estava a conseguir encontrar. O que se temia estava a suceder, uma vez que os azuis e brancos não foram capazes de entrar a matar e marcar um golo cedo. De Alvalade chegavam más notícias, com dois golos leoninos nos primeiros 20 minutos. A ansiedade e o medo aumentavam mas, na sequência de uma melhoria no seu jogo, o FC Porto conseguiu inaugurar o marcador aos 27 minutos, com Adriano a responder de cabeça a um primoroso cruzamento de Quaresma. Grande explosão de alegria no Dragão, eu "limitei-me" a um sonoro grito de alegria, alívio e libertação. Estava feito o mais difícil e o FC Porto podia agora partir para uma exibição mais tranquila e até, quem sabe, uma goleada.

No entanto, o Aves desde o início que mostrou que não estava ali apenas para defender e, depois de ter dado alguns avisos, chegou ao empate aos 34 minutos através de Moreira. Grande balde de água fria, Dragão em silêncio e o Sporting passava momentaneamente para a liderança. A ansiedade voltou a tomar conta de mim, apetecia-me correr para casa e ligar a TV, pelo rádio sofre-se mais, não vemos o que se está a passar e imaginamos sempre o pior. Até ao intervalo a equipa voltou a desencontrar-se, acusou o golo avense e de que maneira. No final da primeira parte o Sporting era o virtual campeão nacional e assustava-me a ideia de isso se manter até ao minuto 90. No entanto, 45 minutos por se jogar davam ainda uma certa paz de espírito, que se misturava com o pavor de poder morrer na praia e perder o título. Depois de estarmos no comando desde a primeira jornada, não seria justo sermos ultrapassados na última. O Benfica também ía ganhando, o que só reforçava o sentimento de frustração, do tipo: o Sporting ganha ao Belenenses, o Benfica à Académica, por que raio o FC Porto não é capaz de estar a ganhar ao Aves?

Se Jesualdo disse algo relevante ao intervalo não se sabe, mas é indiscutível que o FC Porto reentrou com uma atitude de conquista bem mais prometedora. O estádio sentiu isso mesmo e começou a apoiar ainda mais. Pelos comentários que escutava, parecia-me que o golo estava próximo, mas a ansiedade só acalmou quando Lisandro fez aos 52 minutos o 2 - 1: passe de Fucile para o centro e o argentino a desferir um belo remate rasteiro e a bater um impotente Nuno. Novo descarregar da tensão com um audível berro, que até fez um colega estremecer.

A festa voltava ao Dragão, mas o medo de consentir novamente o empate só terminou definitivamente com a obtenção do terceiro sete minutos depois: canto de Quaresma e o avense Jorge Ribeiro a introduzir o esférico na própria baliza. Aqui senti-me campeão nacional e ouvi a festa no estádio cada vez mais intensa. Jorge Ribeiro tentou redimir-se do autogolo e ainda protagonizou um sensacional tiro à barra da baliza de Helton, brasileiro que pouco depois deu o seu lugar na baliza a Vítor Baía. A ovação ao lendário guardião português foi de arrepiar, ele que reforçou a sua liderança como o mais titulado futebolista do mundo, somando o seu 31º êxito e deixando os segundos classificados dessa lista Rijkaard e Pelé a seis títulos de distância. Aos 89 minutos, Lisandro bisou e fechou a contagem com um sensacional remate de pé direito, a culminar uma excelente exibição pessoal. Apito final, FC Porto campeão nacional pela segunda vez consecutiva e pela 13ª vez nos últimos 20 anos!

Invadiu-me a emoção, o orgulho, o doce sabor de vencer contra tanta gente que desrespeita diariamente sem contemplações este grande clube. A quem nos minimiza e subestima, a resposta é dada dentro do campo, com muito sofrimento, mas também com igual talento. A quem sempre colocou em causa as pessoas do FC Porto a resposta está dada, e podem crer que se torna bem mais saboroso vencer assim, ao lembrarmo-nos de todos os ataques que nos foram dirigidos. Da mesma forma que arrebatar o título apenas na derradeira ronda, em despique directo com os dois rivais de sempre e depois de ao intervalo estarmos em segundo, confere a este triunfo contornos verdadeiramente épicos. A azia está instalada neste país! Peço desculpa por parecer pouco desportivo dizê-lo, mas é que não é fácil aguentar tanta hostilidade, tanto ódio, tanta inveja.

Ao longo da semana, a campanha de associação de um possível título à nomeação de Olegário Benquerença para dirigir o desafio foi feroz e incessante. O leiriense acabou mas foi por prejudicar os portistas com erros influenciadores: não anulação do golo do Aves obtido em fora-de-jogo, penalty não assinalado a favor dos portistas e não expulsão de William por agressão. Pormenores... Outro detalhe interessante foi dizer-se que o Prof. Neca estava na disposição de facilitar a vida ao FC Porto, como se ir parar à Liga de Honra não fosse castigo bastante que o motivasse para o contrário. Como se viu, o FC Porto sofreu a bom sofrer para ultrapassar este obstáculo, apetecendo-me nesta altura dizer que quem parece que 'abriu as pernas' foi o Belenenses em Alvalade: vários titulares de fora, golos madrugadores, frango de Marco Aurélio...

É justo dizer que nos momentos decisivos a equipa respondeu à altura das responsabilidades. Quando esteve à beira de ser ultrapassada na classificação, tremeu mas não caiu, tendo respondido afirmativamente aos anseios dos seus fiéis adeptos. Foi assim na Luz, foi assim em Paços de Ferreira, foi assim neste embate com o Aves. O FC Porto é campeão porque foi e é a melhor equipa da liga. Jesualdo Ferreira revelou-se um vencedor porque nunca esmoreceu com as críticas, tendo-se mantido defensor das suas ideias até ao fim. E ganhou! E já agora, uma pequena curiosidade: em 30 jogos (menos 4 que na época passada), marcou 65 golos, mais 11 que o FC Porto campeão de Co Adriaanse. Números...

Parabéns ao FC Porto! Parabéns a todos os jogadores! Parabéns a Pinto da Costa e aos restantes dirigentes! Parabéns a Jesualdo Ferreira e a todo o seu staff! Parabéns a todos nós, portistas! Mais um dia de glória...

quinta-feira, 3 de maio de 2007

BANHO DE FUTEBOL


MILAN - MANCHESTER UNITED 3 - 0
Liga dos Campeões 2006-07 (1/2 Final - 2ª Mão)
2 de Maio de 2007
Estádio Giuseppe Meazza (Milão)
Árbitro: Frank De Bleeckere (Bélgica)
Milan: Dida; Oddo, Nesta, Kaladze, Jankulovski; Pirlo, Gattuso (Cafú 84'), Ambrosini, Seedorf; Kaká (Favalli 86'), Filippo Inzaghi (Gilardino 67'). Tr: Carlo Ancelotti
Manchester United: Van der Sar; O'Shea (Saha 77'), Brown, Vidic, Heinze; Carrick, Scholes, Fletcher; Cristiano Ronaldo, Rooney, Giggs. Tr: Alex Ferguson
Ao intervalo: 2 - 0
Marcadores: 1 - 0 Kaká 10', 2 - 0 Seedorf 28', 3 - 0 Gilardino 78'
CA: Ambrosini 75', Gattuso 81', Cristiano Ronaldo 84'


À semelhança do sucedido na temporada 2004-05, Milan-Liverpool será a final da Liga dos Campeões, em Atenas. Ontem em San Siro, o Milan vulgarizou por completo o Manchester United no segundo jogo das meias-finais e triunfou por concludentes 3 - 0, garantindo assim a possibilidade de desforra frente ao Liverpool no jogo mais aguardado do ano. Kaká superou Cristiano Ronaldo no duelo particular entre ambos, tendo inclusivé sido a grande figura da eliminatória.

O jogo foi estranho. O Milan deu um autêntico banho de bola à formação inglesa, praticamente durante quase toda a partida. Cedo se percebeu qual a tendência do jogo: milaneses dominadores, senhores da bola, instalados no meio-campo contrário, trocando a bola e ameaçando de perto a baliza de Van der Sar, perante a total e incompreensível passividade dos jogadores do United. Foi sem surpresa que Kaká inaugurou o marcador logo aos 10 minutos, num bom remate de pé esquerdo. Tendo perdido por 3 - 2 fora de casa, com este resultado o Milan já estava em vantagem na eliminatória, mas não foi este facto que cambiou o cariz do encontro. Os homens de Ancelotti continuaram tranquilamente a dominar as operações, daí que o segundo golo fosse apenas uma questão de tempo. Após uma infantilidade defensiva de Heinze e Vidic, Seedorf fez o 2 - 0 e deu maior justiça ao 'placard', tal era a superioridade do conjunto italiano.

Até ao intervalo o domínio caseiro continuou intenso e mais golos poderiam ter acontecido, não fossem algumas intervenções de mérito de Van der Sar. Uma primeira parte de sonho para o Milan e de pesadelo para o United. Cristiano Ronaldo foi bem anulado pelo sistema montado por Ancelotti, que fez incidir Gattuso sobre o seu raio de acção, além da normal marcação do lateral, ora direito ora esquerdo. Manteve-se bem discreto ao longo dos 90 minutos e nem de livre directo logrou alvejar a baliza de Dida. Por seu turno, Kaká teve todo o tempo e espaço do mundo para pensar as jogadas, não tendo havido um único jogador que apertasse com o brasileiro. Livre de estorvo, Kaká pegou na batuta e lançou a equipa sempre para o ataque, ora com passes teleguiados, ora com acelerações esporádicas.

Após o descanso, a vergonhosa falta de capacidade de resposta dos ingleses manteve-se e o desânimo começou a ser cada vez maior. Precisando de dois golos, seria de esperar maior espírito de luta, mesmo ao nível do banco, face àquilo que ía sucedendo no relvado. A verdade é que Alex Ferguson denotou igualmente uma confrangedora inépcia, a tal ponto de apenas ter feito a primeira e única substituição aos 77 minutos! É porque estava contente com a actuação da equipa e com o resultado. De facto, apesar de o Manchester United ter surgido no segundo tempo com mais posse de bola, nunca conseguiu criar grandes situações de perigo.

Pelo contrário, o Milan atacava agora pela certa e dava a ideia de poder ampliar a vantagem a qualquer instante. Kaká deu o aviso numa magnífica jogada individual, valendo o guardião Van der Sar a salvar a situação com uma bela defesa. Numa pura jogada de contra-ataque, aproveitando o adiantamento desesperado dos jogadores ingleses, Ambrosini isolou Gilardino com um sensacional passe, que fixou o resultado final em 3 - 0. Até ao final, o que de mais relevante aconteceu foi mesmo o cartão amarelo exibido a Cristiano Ronaldo, já na fase da frustração da derrota em tão importante desafio, que o retiraria do jogo decisivo caso o United se tivesse qualificado.

Foram três, poderiam ter sido quatro, cinco, seis... O Milan dominou o encontro como quis e não encontrou oposição à altura de um semifinalista da Champions. O Manchester United foi uma tremenda decepção e demonstrou uma debilidade que ninguém esperava, tendo transformado um possível jogo empolgante em algo monótono, sem brilho nem chama. Desiludiu todos os adeptos de futebol, nomeadamente aqueles que o apoiavam para chegar à final, como eu.

No mano-a-mano entre Kaká e Cristiano, levou claramente a melhor o brasileiro, mas quem percebe de futebol e opina com imparcialidade, deverá reconhecer que o vento soprou a favor do milanês, tais foram a facilidade e liberdade encontradas neste embate de San Siro. Já o português deparou-se sempre com inúmeras dificuldades em lutar contra o vendaval italiano, tendo sofrido a marcação de dois e, até por vezes, três (!) adversários. Muito mais adultos tacticamente, os italianos não deram hipóteses a um conjunto bem mais limitado nesse como noutros aspectos, nomeadamente, capacidade técnica, inteligência de jogo, leitura desde o banco e vontade de ganhar. Para quem disse, antes desta eliminatória, que Ronaldo tinha maiores oportunidades de brilhar do que Kaká, em virtude de estar integrado numa equipa superior, este jogo provou exactamente o contrário. Depois desta eliminação do madeirense, a tónica tem sido exaltar Kaká a um nível superior ao do português, como se a qualidade de um jogador dependesse apenas de um só jogo. Já não há paciência para esta constante perseguição a Cristiano Ronaldo. No entanto, só os predestinados são alvo deste tipo de invejas incessantes e há que ver as coisas sempre numa perspectiva positiva.

O meu desejo para o jogo decisivo não se concretizou e as minhas previsões saíram furadas. Milan-Liverpool é então a final da Liga dos Campeões 2006-07, disputada por dois dos emblemas com melhor historial na prova: 6 vitórias em 10 finais para o Milan, 5 triunfos em 6 finais para o Liverpool. Esta será a 11ª para os milaneses e a 7ª para os 'reds'. Em Atenas, que ganhe o Liverpool.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

LIVERPOOL NA FINAL COM JUSTIÇA


LIVERPOOL - CHELSEA 1 - 0 (4 - 1 g.p.)
Liga dos Campeões 2006-07 (1/2 Final - 2ª Mão)
1 de Maio de 2007
Anfield Road (Liverpool)
Árbitro: Mejuto González (Espanha)
Liverpool: Reina; Finnan, Carragher, Agger, Riise; Gerrard, Mascherano (Fowler 117'), Pennant (Xabi Alonso 78'), Zenden; Kuyt, Crouch (Bellamy 106'). Tr: Rafael Benítez
Chelsea: Cech; Paulo Ferreira, Terry, Essien, Ashley Cole; Makelele (Geremi 117'), Obi Mikel, Lampard; Joe Cole (Robben 98'), Drogba, Kalou (Wright-Phillips 107'). Tr: José Mourinho
Ao intervalo: 1 - 0
Marcador: 1 - 0 Agger 22'
CA: Ashley Cole 28', Agger 62', Zenden 110'
Penalties: 1 - 0 Zenden, Robben falhou, 2 - 0 Xabi Alonso, 2 - 1 Lampard, 3 - 1 Gerrard, Geremi falhou, 4 - 1 Kuyt


Foi com tristeza que vi o Liverpool afastar o Chelsea da final da Liga dos Campeões, através das grandes penalidades (4 - 1), após 1 - 0 no final do prolongamento. O Chelsea-Manchester United em Atenas já não vai acontecer, estou certo que seria a final mais bonita a que o mundo poderia assistir. Porém, não me custa nada admitir que o Liverpool, pela forma como jogou e lutou, foi um justo vencedor desta meia-final apaixonante. Fico triste por Ricardo Carvalho, por Paulo Ferreira, por Hilário e por todo o staff técnico liderado por José Mourinho. Sou um profundo admirador do 'Special One' como treinador e orgulho-me que seja português, embora haja traços na sua personalidade que me desagradam. Esta derrota diante de um dos seus inimigos de estimação talvez o faça ficar um pouco mais humilde e repensar a forma como, por vezes, desrespeita os outros de forma injusta, tendo sido Cristiano Ronaldo a sua vítima mais recente.

Desde jogo, fiquei impressionado com outro facto, no qual concordo com Rafael Benítez: 'Special Ones' são todos aqueles adeptos do Liverpool. Que ambiente maravilhoso tem Anfield Road! Pela televisão dá para se perceber a sua dimensão, ao vivo nem imagino o que aquilo será...

O jogo foi intenso mas nem sempre de grande qualidade. Houve muito respeito de ambos os lados, nenhuma equipa se lançou deliberadamente ao ataque, daí que houve muita luta na zona central do terreno. O encontro começou táctico, mas cedo se percebeu que o Liverpool estava mais dominador e mais subido, como aliás lhe competia, face à desvantagem de um golo na eliminatória, embora tal domínio não se traduzisse em jogadas perigosas para Cech. A primeira oportunidade apareceu aos 22 minutos e deu o 1 - 0 para o Liverpool: livre de Gerrard rasteiro para a área e remate de Agger com êxito, perante a total e inadmissível passividade da defensiva londrina. Depois do golo, o Chelsea sofreu um mau bocado e viu-se em apuros perante mais algumas investidas do adversário. A partir da meia-hora os 'blues' começaram finalmente a sacudir a pressão e a adiantar-se no relvado. Drogba teve uma óptima hipótese para empatar mas Reina negou-lhe os intentos. Até ao intervalo, os londrinos continuaram senhores do jogo mas mais nada de muito relevante aconteceu.

Os primeiros minutos da segunda metade foram a continuação dos últimos da primeira, com o Chelsea a manter maior posse de bola e a mostrar disposição em marcar um golo, que poderia significar o fim do sonho do Liverpool. A este respeito, devo dizer que foi excelente a capacidade dos homens de Benítez em conviver com a constante ameaça de ter que marcar mais dois golos, caso o Chelsea chegasse à igualdade. Pressão menor teve o Chelsea nesse aspecto, uma vez que, mesmo que o Liverpool fizesse o 2 - 0, lhe continuava a bastar um tento para seguir em frente. Mesmo com o ligeiro ascendente inicial do Chelsea, o equilíbrio foi a nota dominante da segunda parte. Ainda assim, o Liverpool foi quem teve as melhores chances para marcar: uma cabeçada de Crouch para defesa apertada de Cech, outra de Kuyt à trave, um remate de Pennant interceptado a custo por Essien e um remate de Zenden em cima do minuto 90. Para os de Londres, apenas um centro de Cole que quase resultava em autogolo de Carragher e pouco mais em termos de perigo real.

Chegava então o prolongamento e mais 30 minutos de emoções. O equilíbrio continuou, embora tenha sido novamente o Liverpool a estar mais perto do golo, em dois lances protagonizados por Kuyt. O primeiro foi um golo anulado ao holandês por fora-de-jogo (milimétrico mas existente), apontado na recarga a um remate de Xabi Alonso que Cech defendeu para a frente. O segundo foi um remate, quase em cima do minuto 120, em zona muito perigosa que o guardião checo parou com classe.

Nas grandes penalidades, a sorte sorriu a quem mais fez por a merecer. Caso não se as considere uma lotaria - para mim mais que uma lotaria é um momento de controlo emocional -, então deve dizer-se que os jogadores do Liverpool revelaram maior cabeça fria e deram justiça ao desfecho desta eliminatória. O 'keeper' espanhol Reina defendeu os penalties de Robben e Geremi e foi herói. O Chelsea procurou lutar sempre, teve várias ausências forçadas e se ganhasse também seria justo pelo esforço e dedicação com que se bateu.

Estava à espera que o Chelsea jogasse em Anfield com maior capacidade de segurar a bola e controlar o jogo no sector intermédio. Lampard continua a exibir-se abaixo do que pode fazer, Makelele fez uma bela partida mas não teve a ajuda necessária do discreto Obi Mikel. Para colmatar a ausência de Carvalho, Essien foi colocado a central e o meio-campo ressentiu-se e muito. Gerrard foi o patrão daquela zona, muito bem secundado pelo espírito batalhador de Mascherano. Kuyt, além de ter sido o elemento mais perigoso do Liverpool, ainda foi o autor do penalty decisivo. Benítez voltou a eliminar Mourinho da Champions, o técnico português continua sem ganhá-la desde que saiu do FC Porto, em 2004, sem sequer a festejar. Tenho pena mas o futebol é isto. Parabéns ao Liverpool e aos seus espectaculares seguidores.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

FC PORTO A SOMAR


FC PORTO - BELENENSES 3 - 1
1ª Liga Portuguesa 2006-07
22 de Abril de 2007
Estádio do Dragão (Porto)
Árbitro: João Vilas Boas (Braga)
FC Porto: Helton; Bosingwa, Ricardo Costa, Bruno Alves, Fucile; Raúl Meireles (João Paulo 89'), Lucho González, Jorginho (Anderson 57'); Postiga (Lisandro 63'), Adriano, Quaresma. Tr: Jesualdo Ferreira
Belenenses: Marco (Costinha 58'); Gaspar, Rolando, Nivaldo, Rodrigo Alvim; Ruben Amorim (Fernando 25'), Sandro Gaúcho, José Pedro; Cândido Costa (Carlitos 46'), Dady, Silas. Tr: Jorge Jesus
Ao intervalo: 2 - 0
Marcadores: 1 - 0 Adriano 9', 2 - 0 Lucho González 45' gp, 2 - 1 Nivaldo 49', 3 - 1 Bruno Alves 85'
CA: Cândido Costa 27', Marco 45', Rolando 66'


Foi uma bela tarde/noite de futebol no Dragão. Com uma excelente assistência e um ambiente a condizer, o FC Porto tratou de não vacilar e pareceu querer dizer à concorrência pelo título que não vai ser fácil roubar-lhe a vantagem conquistada. O Belenenses, acabado de se qualificar para a final da Taça e em momento psicológico favorável, não foi capaz de contrariar o maior poderio portista e perdeu bem. Ainda assim, contribuiu para que se tivesse assistido a um bom espectáculo e é destes jogos que o futebol português precisa.

Os treinadores apresentaram as equipas iniciais sem qualquer surpresa, dando seguimento às suas apostas mais recentes. Mal o apito soou, percebeu-se que o FC Porto estava fortemente decidido a resolver as coisas cedo. Instalado no meio-campo belenense, fez circular a bola com rapidez e procurou chegar à baliza de Marco no menor tempo possível. Com Jorginho em bom plano durante toda a primeira parte e o trio da frente em constante movimento, os homens de Belém revelaram desacerto nas marcações e no pressing e não foram capazes de suster este ímpeto inicial azul e branco.

Os primeiros 20 minutos foram então de intenso domínio portista e o perigo surgia de todo o lado. O golo de Adriano - excelente jogo do brasileiro - na recarga a um primeiro remate de Postiga, logo aos 9 minutos, surgiu com naturalidade e provou mais uma vez que a capacidade matadora do brasileiro dentro da área é uma das mais-valias da equipa nesta fase da época. Apesar do lapso de Marco ao largar a bola para a frente, é de salientar a forma como Adriano finaliza o lance, com um toque subtil sobre o desafortunado guardião do Restelo. Adriano voltou a estar logo a seguir muito perto de aumentar o marcador, mas o seu remate de cabeça saiu sobre a barra.

A vencer, os portistas foram baixando o ritmo e tornaram-se menos ameaçadores, mas a verdade é que Helton se manteve um mero espectador durante toda a primeira metade. Quaresma não realizou das suas exibições mais felizes mas teve, mesmo assim, chance de experimentar o seu habitual pontapé de trivela, ao que Marco respondeu com uma vistosa defesa. Sobre o intervalo, Adriano foge à marcação e, isolado, tenta driblar o guarda-redes, que o derruba de forma a não deixar dúvidas ao árbitro de apitar para castigo máximo. Lucho González não desperdiçou a oportunidade e dilatou a diferença para dois golos.

Face ao decepcionante desempenho dos seus jogadores nos primeiros 45 minutos, Jorge Jesus procedeu a uma alteração, fazendo entrar Carlitos para o lugar de Cândido Costa. E o certo é que o Belenenses surgiu na segunda parte com outra atitude, mais positiva, mais agressiva, com mais vontade de ter a bola e chegar junto da área contrária.

Após um período de algum adormecimento de ambas as partes e já depois de Costinha ter entrado para o lugar de Marco - saiu magoado na sequência de um choque violento com Postiga -, o Belenenses reduziu o 'score' para a diferença mínima. Canto da direita, e Nivaldo, incompreensivelmente solto, a bater Helton com um belo cabeceamento.

O FC Porto continuou em toada de gestão do resultado, algo que podia ter-lhe saído caro, se Fernando tivesse aproveitado uma clamorosa oportunidade para empatar quando, após passe errado de Lucho, surgiu isolado a rematar a centímetros do poste. Espicaçados ou não por este susto, os azuis e brancos voltaram a elevar a intensidade com Bosingwa a ser o principal impulsionador das mudanças de velocidade. Nesta fase, duas jogadas tiradas a papel químico: um par de arrancadas do lateral pela direita, cruzamentos a preceito e Adriano a acertar na trave por duas ocasiões. Quaresma e o regressado Lisandro dispuseram igualmente de boas hipóteses para facturarem mas Costinha opôs-se com categoria.

Os 'dragões' voltavam a estar por cima no jogo, mas com a diferença tangencial a tranquilidade não era ainda absoluta, até porque o quarto lugar do Belenenses não era seguramente obra do acaso. Nova subida de Nivaldo à área, um potente disparo de José Pedro ou uma qualquer invenção de Silas e poderia acontecer o balde de água fria na Invicta. Mas Bruno Alves encarregou-se de aquecer novamente os ânimos com uma magnífica cabeçada bem lá no alto, a culminar um canto bem executado por Quaresma.

Estava feito o resultado final e com ele uma certeza: Bruno Alves está-se a fazer um senhor jogador e já pisca o olho à Selecção Nacional. Do mesmo modo que o critiquei na época passada face a desempenhos, por vezes, desastrosos, também agora não me custa nada elogiá-lo, em virtude das continuadas exibições de grande nível nesta temporada.

Pode dizer-se que o Belenenses não apareceu no Dragão tão forte como, possivelmente, seria de esperar, mas é comum uma equipa jogar aquilo que a outra permite. Apesar da boa entrada na etapa complementar e de ter estado perto do empate na tal perdida de Fernando, o Belenenses foi, no cômputo geral, muitíssimo inferior aos homens da casa, bastando para o confirmar verificar as estatísticas da partida.

O árbitro esteve bem e no lance mais polémico decidiu correctamente, como aliás teria de ser face à evidência da falta que originou a grande penalidade.

O FC Porto passou mais um duro teste com distinção e caminha a passos largos para a reconquista do ceptro máximo português. Segue-se o Boavista no Estádio do Bessa...

quarta-feira, 11 de abril de 2007

CHELSEA EM GRANDE


VALÊNCIA - CHELSEA 1 - 2
Liga dos Campeões 2006-07 (1/4 Final)
10 de Abril de 2007
Estádio Mestalla (Valência)
Árbitro: Kyros Vassaras (Grécia)
Valência: Cañizares; Miguel, Ayala, Moretti, Del Horno; Albelda, Albiol (Hugo Viana 70'), Joaquín, David Silva; David Villa, Morientes (Angulo 64'). Tr: Quique Flores
Chelsea: Cech; Diarra (Joe Cole 46'), Terry, Ricardo Carvalho, Ashley Cole; Obi Mikel, Essien, Ballack, Lampard (Makelele 90'+2'); Drogba, Shevchenko (Kalou 90'+1'). Tr: José Mourinho
Ao intervalo: 1 - 0
Marcadores: 1 - 0 Morientes 32', 1 - 1 Shevchenko 51', 1 - 2 Essien 90'
CA: Essien 3', Ballack 20', Del Horno 44', Aldelda 50', Ayala 60', Moretti 61'


O Chelsea está nas meias-finais da Liga dos Campeões. Depois do desconfortável empate em Stamford Bridge há uma semana, os pupilos de José Mourinho foram a Espanha derrotar o Valência por 2 - 1, com o golo decisivo a ser obtido sobre o minuto 90. Goste-se ou não do estilo, o Chelsea continua a ser uma equipa temível e tremendamente pragmática, com uma capacidade acima da média para gerir as emoções dos grandes momentos e controlar todas as vertentes do jogo, mesmo em desvantagem. Apesar de todas as críticas de que tem sido alvo durante esta época, a turma londrina está entre as quatro melhores equipas da Europa, graças a uma exibição plena de calculismo e auto-confiança, em que aniquilou o adversário no momento certo e de forma quase cruel. É isto o Chelsea de Mourinho de 2006-07, longe de ser um regalo para a vista, mas o protótipo da equipa adulta, que sabe tudo o que tem de fazer no relvado para sair com a vitória. E Mourinho, paulatinamente, lá vai continuando a calar algumas bocas.

Com o ambiente a fervilhar nas bancadas, o jogo começou táctico, com as equipas a estudarem-se mutuamente e sem correr grandes riscos, embora os valencianistas se mostrassem mais subidos no terreno e com mais posse de bola. A partir dos 15 minutos, os 'blues' começaram a ter mais iniciativa de jogo e mais bola, mas dada a intensa pressão espanhola logo à saída do meio-campo, os médios ingleses nunca conseguiram 'agarrar' o jogo nem dar profundidade ao ataque. Só em alguns cantos apontados invariavelmente por Lampard e quase sempre ganhos nas alturas pelos homens do Chelsea, o perigo rondou a baliza de Cañizares, com Ricardo Carvalho, Ballack e Shevchenko a desperdiçarem boas oportunidades.

A partir da meia-hora, e sempre com o Chelsea a não encontrar soluções para, de bola corrida, causar embaraços à defesa da casa, o conjunto de Quique Flores começa a tornar-se mais atrevido e a lançar alguns ataques rápidos sempre que recuperava a bola, com Silva e Joaquín a serem as 'setas' de serviço. Depois de num desses ataques, Morientes já ter ameaçado com um explosivo remate ao poste, o ponta-de-lança espanhol chegou mesmo ao golo. Na sequência de uma investida pela direita seguida de cruzamento de Joaquín, Morientes bateu Cech de pé esquerdo, apontando o seu sexto golo na presente edição da Champions. O mesmo Morientes logo a seguir podia ter feito o segundo, sendo esta a melhor fase do Valência em todo o jogo, em que, à maior mas inconsequente posse de bola londrina, respondia com pressão sufocante e velocidade na transição atacante. Drogba ainda teve na cabeça a melhor oportunidade da sua equipa na primeira parte, mas Cañizares respondeu com uma fabulosa defesa. Apesar deste fogacho, o Valência chegou ao intervalo claramente na mó de cima e tornava-se evidente que José Mourinho tinha que fazer alguma coisa para mudar o curso do jogo e da eliminatória.

Para a segunda parte, não se estranhou portanto que Mourinho procedesse a uma alteração no sentido de dar mais velocidade e imaginação ao ataque: retirou o desastrado Diarra, fazendo entrar o criativo Joe Cole para médio ofensivo vagabundo, passando Essien para lateral direito. O efeito positivo foi imediato. Joe Cole trouxe as mudanças de ritmo necessárias para colocar os espanhóis em sentido. O golo de Shevchenko, resultante de um ressalto, logo nos primeiros minutos também ajudou, diga-se, o Chelsea a baixar os níveis de ansiedade e a jogar um futebol mais personalizado e seguro. Na altura em que aconteceu, este golo pode ter parecido injusto face ao que até aí sucedera, mas a verdade é que o Chelsea daí em diante fez por merecer a fortuna que lhe calhou. Visivelmente mais fresco e com um andamento muito superior, passou a dominar o encontro por completo, instalando-se no meio terreno caseiro e revelando-se sempre mais rápido sobre a bola. O défice físico do Valência era evidente e a sua incapacidade para pressionar e sair em contra-ataque quase total. Depois de Drogba já ter tentado o golo com um bom remate, Angulo teve nos pés a única situação de golo do Valência no segundo tempo, mas o seu pontapé saiu ligeiramente ao lado do poste. Um oásis no deserto, já que o Chelsea continuou a dominar todas as acções do jogo. Aos 84 minutos, após uma cabeçada de Ballack no seguimento de um livre de Lampard (pois claro!), Cañizares fez uma defesa monstruosa e adiou por mais alguns minutos a festa azul.

O espectro do prolongamento já pairava sobre o Mestalla, mas o Chelsea revelando uma competitividade e maturidade impressionantes, conseguiu fazer o golo que lhe deu o apuramento exactamente aos 90 minutos (remate cruzado de Essien, uma máquina adaptável a qualquer posição), matando desde logo qualquer esboço de reacção adversária, pois seriam precisos dois golos para o Valência seguir em frente. Qual 'serial killer', a formação de Mourinho demonstrou mais uma vez um espírito matador e um cinismo insuperáveis; os jogadores do Chelsea, esses, mostraram, para quem quiser ver, de que massa são feitos os verdadeiros campeões. De José Mourinho nem vale a pena dizer nada; contra todos os seus detractores, continua 'tranquilamente' a somar resultados e a espalhar classe e cultura de vitória. É isto o Chelsea de Mourinho! E Atenas já esteve mais longe.

quinta-feira, 29 de março de 2007

A VITÓRIA ALI TÃO PERTO...


SÉRVIA - PORTUGAL 1 - 1
Fase de Qualificação para o Europeu'2008
28 de Março de 2007
Estádio do Estrela Vermelha (Belgrado)
Árbitro: Bertrand Layec (França)
Sérvia: Stojkovic; Duljaj, Vidic, Krstajic, Dragutinovic; Jankovic (Koroman 68'), Kovacevic, Stankovic (Markovic 78'), Krasic; Tosic (Lazovic 84'), Pantelic. Tr: Javier Clemente
Portugal: Ricardo; Miguel (Caneira 72'), Ricardo Carvalho, Jorge Andrade, Paulo Ferreira; Petit, Tiago, João Moutinho (Raúl Meireles 77'); Cristiano Ronaldo, Nuno Gomes (Quaresma 82'), Simão. Tr: Luiz Felipe Scolari
Ao intervalo: 1 - 1
Marcadores: 0 - 1 Tiago 5', 1 - 1 Jankovic 37'
CA: Stankovic 7', Pantelic 35', Cristiano Ronaldo 36', Jankovic 40', Paulo Ferreira 50', Tiago 59', Dragutinovic 62'


Portugal empatou na Sérvia e, bem vistas as coisas, não se pode considerar negativo conquistar um ponto em casa de um adversário directo pelo apuramento. Mas será que não houve falta de ambição de Luiz Felipe Scolari? O que leva um treinador a não fazer tudo para poder vencer um jogo, quando a sua equipa demonstra sobeja capacidade para o fazer? Entendo que o 'Sargentão' é um líder competente e desde que chegou ao nosso país a selecção portuguesa deu um salto significativo, somando grandes resultados e afirmando-se cada vez mais no plano internacional como uma das melhores. No entanto, o pragmatismo que revela em certas ocasiões é exagerado, escusado e indiciador de um conservadorismo que, manifestamente, me desagrada.

Scolari, talvez surpreendentemente para muitos mas não para mim, apostou em Simão para o onze inicial, deixando Quaresma no banco de suplentes. Foi uma opção como outra qualquer, Simão também está em grande forma e tem sido o dono daquele lugar, embora me pareça que, face à exibição que realizara contra a Bélgica, o 'Harry Potter' merecesse a titularidade. De resto, manteve todos os outros elementos que iniciaram o jogo de Alvalade, inclusivé Nuno Gomes e João Moutinho - dados como possíveis suplentes - e, quanto a mim, muito bem.

O jogo não podia ter começado melhor. Logo nos primeiros minutos, Tiago tratou de silenciar o ambiente escaldante de Belgrado, conseguindo com alguma sorte um golo espectacular do meio da rua, o seu primeiro ao serviço da selecção.

A perder, a Sérvia partiu para junto da área nacional e durante 15 minutos exerceu intensa pressão sobre a nossa defensiva. Dinamizados pela velocidade e técnica de Krasic e usando um pressing alto, os sérvios não permitiam que Portugal acertasse 2/3 passes seguidos e desenvolvesse o seu futebol apoiado tão característico. Ricardo via a bola sempre muito próxima, mas a verdade é que, nesse período, só por uma vez foi posto à prova, num ressalto de bola que quase deu o empate a Stankovic.

Por volta dos 20 minutos, a Sérvia começa a perder intensidade e Portugal aproveita para subir no terreno e equilibrar a partida, começando a desferir alguns ataques perigosos, sobretudo através dos seus extremos. Petit, de longe, tentou imitar Tiago, mas desta vez Stojkovic conseguiu desviar para canto. Portugal detinha agora um maior domínio territorial, mas os da casa nunca deixaram de procurar a igualdade, com transições ofensivas rápidas e fazendo uso de uma das suas principais armas: os lances de bola parada. Depois de Vidic ter ameaçado, na sequência de um livre do lado direito, a Sérvia chegou mesmo ao empate, aos 37 minutos. Canto da direita de Stankovic e golo de cabeça de Jankovic, perante a passividade inexplicável da defesa lusa. É certo que os sérvios possuem um porte físico bastante superior, mas não era preciso deixá-los à vontade em plena pequena-área.

Em resposta, Moutinho podia ter feito o 2 - 1, no seguimento de uma boa iniciativa de Simão, mas não foi capaz de definir a jogada com sucesso. Os últimos minutos do primeiro tempo foram algo nervosos de parte a parte e o intervalo lá acabou por chegar com um 1 - 1 justo face ao sucedido, num jogo tacticamente muito interessante, em que nenhuma equipa dominou a outra, mas onde foi visível que Portugal era claramente superior e tinha a vitória ao alcance. Pedia-se para o segundo tempo maior capacidade de retenção de bola, no sentido de focalizar a acção do jogo mais à frente, procurando assim controlar melhor a partida, tentar chegar ao segundo golo e, ao mesmo tempo, dar maior tranquilidade à sua defesa.

Depois do descanso, chegou a dar a ideia que os sérvios traziam a mesma disposição de discutir o resultado e colocar a turma das quinas em sentido, mas rapidamente Portugal tomou conta das operações, com os seus médios a pressionarem mais à frente e a garantirem, na fase seguinte, uma posse de bola mais demorada e efectiva. Tiago, depois de uma excelente jogada colectiva, proporcionou a Stojkovic uma vistosa parada. Moutinho e o mesmo Tiago, de longa distância, voltaram a testar as qualidades do guardião, sendo que, por esta altura, Portugal já ia justificando estar de novo em vantagem no marcador.

Cheirava a golo português, a Sérvia praticamente não chegava à nossa área e, portanto, a expectativa era que a Selecção Nacional mantivesse o ritmo para chegar à vitória.
Entre os 65/70 minutos, o encontro começa, porém, a ficar mais indefinido, mais lento, menos fluído e sobretudo mais disputado sobre o centro do campo. Dei por mim a pensar: isto está a pedir a entrada do Quaresma a ver se anima. Scolari não foi dessa opinião. Ao seu melhor estilo, faz entrar Caneira e depois Raúl Meireles, para segurar não sei o quê e como que dizendo lá para dentro: está na hora de começar a jogar mais devagar, o empate já é bom, não arrisquem! Pode haver quem apoie esta atitude, é verdade que o empate não deixava de ser um desfecho positivo, mas não gosto desta mentalidade. Se Portugal era superior, estava por cima no jogo e não se vislumbrava na Sérvia grande capacidade de resposta, por que não dar um pouco mais e tentar alcançar os três pontos em vez de um? Infelizmente, o técnico brasileiro já nos habituou a este tipo de comportamentos demasiado calculistas. Javier Clemente, seleccionador da Sérvia, deve ter andado na mesma escola de Scolari; a precisar de vencer, retirou Stankovic do terreno para fazer entrar um defesa...

O jogo estava cada vez mais adormecido e todos pareciam satisfeitos. Aos 82 minutos, Scolari lá se decidiu pela entrada de Quaresma, tendo saído Nuno Gomes e levando Ronaldo para o centro do ataque. Deve dizer-se que o extremo portista entrou mal na partida, acumulando passes errados e dribles falhados, mas vir de uma exibição tão soberba como a de sábado e jogar pouco mais de 10 minutos há-de ser frustrante. E o apito final não tardou, Portugal fez um jogo positivo e conquistou um ponto que pode vir a ser importante nas contas, mas não fez tudo para alcançar o triunfo, deixando assim para trás dois pontos que, do mesmo modo, poderão fazer falta mais tarde.

Nas reacções após o jogo, Scolari classificou a exibição lusa de "maravilhosa", e eu confesso não entender tal opinião, pois maravilhosa seria a vitória. Confrontado com a opção por Simão em detrimento de Quaresma, declarou que "o Simão é o titular da posição", ou seja, o 'cigano' pode continuar a fazer exibiçoes fabulosas e a marcar os golos de trivela que quiser, que já sabe que tem o banco à sua espera, porque "o Simão é o titular da posição". Sem comentários...
Portugal segue agora no segundo lugar do grupo com 11 pontos em 6 jogos, em igualdade com a Finlândia (perdeu 1 - 0 no Azerbaijão) e a Sérvia. A Polónia (venceu 1 - 0 a Arménia em casa) está destacada na liderança com 16 pontos mas com mais um jogo disputado. Portugal tem obrigação de vencer este grupo e garantir o apuramento directo para o Euro'2008. Oxalá Scolari se dê conta de que, com o lote sensacional de jogadores de que dispõe, não precisa de ter tanto medo!