sábado, 18 de agosto de 2007

LIGA ESPANHOLA 2007-08 - DUELO DE TITÃS


Uma semana resta para o início da Liga Espanhola. Ofuscada nos últimos anos pela Premier League em termos de espectacularidade e notoriedade, não deixa, porém, de continuar uma competição de nível altíssimo, recheada de grandes estrelas, com os estádios invariavelmente cheios e cujo equilíbrio é uma garantia de emoção sem limites. A época passada é disso um bom exemplo, com o título a ficar decidido apenas na derradeira jornada. Para esta temporada, Barcelona e Real Madrid continuam a ser os mais sérios candidatos ao título e, na minha opinião, as duas únicas equipas com possibilidades efectivas de o conseguirem. Equipas como o Sevilha, o Valência e o Atlético Madrid correrão por fora, na condição de 'outsiders', à espreita dos hipotéticos tiros no pé dados pelos dois colossos. Face às movimentações de 'blaugranna' e 'merengues' neste defeso, a expectativa é enorme e o duelo será titânico.

O Barcelona apostou na continuidade, apesar da desastrosa campanha de 2006-07. Poucos jogadores saíram, dos quais se destacam Giuly, Saviola (directamente para o Real Madrid), Van Bronckhorst e Thiago Motta. Das poucas contratações, ênfase total para a entrada do 'galáctico' Henry (24 milhões de euros), a que se juntam Abidal, Gabriel Milito e Yayá Touré. Com efeito, se somarmos o avançado francês vindo do Arsenal aos já existentes Ronaldinho, Messi, Deco e Eto'o, parece que a 'equipa galáctica', outrora no Santiago Bernabéu, se estabelece agora no Camp Nou ( há quem lhes chame os '4 magníficos', esquecendo-se de Deco...). Questões em aberto subsistem ainda na equipa catalã. Gudjohnsen e Belletti podem mudar de ares, embora não haja certezas a esse respeito. Face à abundância de estrelas e à decorrente dificuldade da sua conciliação, a possibilidade de Deco sair continua a ser falada diariamente, o que não acredito que venha a suceder; seria um erro de palmatória dos responsáveis do clube.

Nestes moldes, é aliciante esboçar desde já um possível onze-base desta super-equipa, sendo praticamente um dado adquirido que o 4-3-3 continuará a ser o sistema utilizado. Na guarda das redes, estará o habitual Victor Valdés que, sem ser um 'portero' extraordinário, tem-se mantido a titular desde há bastante tempo. No sector mais recuado, muitas e boas opções para Frank Rijkaard. Zambrotta e Belletti (caso continue) para a direita, Abidal e Sylvinho para a esquerda, Puyol, Márquez, Thuram e Gabriel Milito para o centro, restando ainda o polivalente Oleguer. Do meio-campo para a frente é que começam as saudáveis dores de cabeça para o técnico holandês, tal é a diversidade e categoria dos jogadores disponíveis. Para jogar à frente da defesa, existe Xavi, Edmilson (pode jogar também a central) e Yaya Touré (excelente jogador e com uma compleição física impressionante), é só escolher. Depois surge aqui uma dúvida: será que Ronaldinho continuará a actuar do lado esquerdo do ataque ou, numa aposta mais arrojada, passará a jogar como '10', tendo Deco ou Iniesta atrás de si como médio de transição e possibilitando um trio de ataque composto por Messi, Eto'o e Henry? Esta segunda variante parecer-me-ía uma boa aposta (arriscada mas susceptível de gerar um retorno inigualável), mas tenho muitas dúvidas que Rijkaard esteja para aí virado. No pressuposto de Ronaldinho jogar na frente, um do tridente Messi-Eto'o-Henry terá sempre de sair, parecendo-me evidente que o candidato natural a fazê-lo será o camaronês. Nesse caso, teríamos Henry como avançado-centro e Messi a entrar pela direita. Na minha perspectiva, seja qual fôr a escolha, Deco terá sempre de jogar, pois é uma garantia de equilíbrio, talento e trabalho em simultâneo. Oxalá Rijkaard seja da mesma opinião e não comece a ostracizar o internacional português. Há que contar igualmente com Giovani dos Santos, esse prodígio mexicano de apenas 18 anos, que pode ser uma boa surpresa na temporada. Mais novo ainda - 16 anos - mas igualmente prodigioso é Bojan Krkic que, ao que parece, integrará também o plantel principal e estará à espreita de uma ou outra oportunidade para brilhar. Uma equipa absolutamente maravilhosa é aquilo que me apetece dizer nesta altura.

Para fazer frente ao gigante, aparece o melhor clube do século XX, o Real Madrid. Campeão em 2006-07 de forma algo surpreendente, os madrilenos apostaram na substituição do treinador e na aquisição de vários nomes de alto gabarito (consta que a coisa ainda não acabou), por forma a suprir as imensas saídas verificadas (Roberto Carlos, Beckham, Helguera, Reyes, Cassano, etc). Assim, o alemão Bernd Schuster é o novo timoneiro do monstro, decidido que foi o despedimento de Fábio Capello. Na lista de reforços já confirmados aparecem Pepe (30 milhões), Sneijder (27 milhões), Drenthe (14 milhões), Metzelder, Saviola e Dudek, a que se juntam os regressos pós-empréstimo de Júlio Baptista e Balboa (Soldado já sabe que não integrará o plantel e mesmo Baptista ainda não é certo que fique). Robben, Daniel Alves e, mais recentemente, o sevilhano Puerta continuam a ser possibilidades fortemente veiculadas na imprensa, numa altura em que a febre pelos portistas Quaresma e Lucho González parece estar curada, para já. Cristiano Ronaldo e Kaká também chegaram a ser equacionados, mas o Real Madrid esbarrou na intransigência de Manchester United e Milan em cederem as suas principais estrelas.

Apesar dos condicionalismos inerentes às indefinições ainda existentes, não é difícil concluir que estamos perante uma equipa temível. Schuster já admitiu que quer jogar com extremos e o 4-4-2 clássico parece ser o sistema escolhido. Casillas seguirá como dono da baliza, tendo como alternativa o experiente e categorizado Dudek. Pepe, mesmo com a desconfiança inicial dos espanhóis, reveladora da sua ignorância relativamente ao jogador, seguramente se afirmará como patrão da defesa, ao lado de Cannavaro. Metzelder e o polivalente Sérgio Ramos (pode jogar a central ou a lateral-direito) são as alternativas para o eixo defensivo. Miguel Torres pode funcionar em ambas as laterais, havendo ainda Michel Salgado e Cicinho (pode estar de saída)para a direita e Marcelo para a esquerda, já para não falar em Drenthe, que faz as posições de lateral e extremo-esquerdo com igual eficácia. Para o centro do terreno, há Diarra, Gago e Emerson, para funcionarem como médio mais recuado, surgindo Sneijder, Guti ou mesmo Baptista para uma posição um pouco mais adiantada. Nas alas, Higuaín, Balboa, Drenthe e Robinho (prefiro vê-lo inserido na dupla de ataque, à semelhança do que sucede no 'escrete') são, por agora, as soluções. Na frente, Van Nistelrooy é o único com lugar cativo. Raúl e Saviola são as opções mais naturais para lhe fazerem companhia, embora Robinho e Baptista possam funcionar aí na perfeição. Na certeza de que o plantel não está ainda fechado, esta é uma formação de sonho, com a obrigação de lutar pela vitória em todas as competições em que estiver inserida.


Para andar lá em cima na classificação e tentar bater o pé aos dois tubarões, perfilam-se Sevilha, Valência e Atlético Madrid, não obstante os dois primeiros lugares estarem, na minha opinião, encontrados. Na equipa andaluz, Daniel Alves está de saída e Puerta permanece uma incógnita, mas gente como Kanouté, Luís Fabiano, Poulsen, Adriano ou Dragutinovic assegurarão decerto uma época idêntica às anteriores. Duda é o português do plantel e oxalá continue a jogar com alguma regularidade. No Valência, a vedeta Van der Vaart é o mais recente desejo dos seus responsáveis e veremos nos próximos dias se tal se concretizará. Seria um reforço magnífico, para adicionar a elementos como David Villa, Morientes, Joaquín, Helguera, Albelda, Arizmendi ou os portugueses Miguel e Caneira. Uma vontade secreta de conquistar o título é perfeitamente natural no clube 'ché'. Já o Atlético Madrid atravessa um período de viragem e a aposta para 2007-08 foi fortíssima. Se juntarmos os reforços Simão, Reyes, Forlán e Luís Garcia aos da casa Maniche, Aguero, Maxi Rodríguez e Luccin, entre outros, obtemos um conjunto de grande porte no panorama do futebol espanhol, que pode ambicionar a voos bem altos no país-vizinho. Zé Castro é uma boa opção para central, enquanto Costinha deve estar de saída. Todavia, apesar da valia destes 'outsiders', é minha convicção que o título é uma luta a dois entre Barça e Real:





BARCELONA


Principal estrela: Ronaldinho.
Onze-tipo (4-3-3): Victor Valdés; Zambrotta, Puyol, Rafael Márquez, Abidal; Xavi, Iniesta, Deco; Messi, Henry, Ronaldinho.
Principais opções: Thuram, Edmilson, Yaya Touré, Giovani dos Santos, Eto'o.
Treinador: Frank Rijkaard.
Comentário: à entrada para 2007-08, o Barcelona parece-me a melhor equipa do mundo do momento, inclusivé bem superior ao Real Madrid. Como tal, aposto em Deco e companhia para ganhar o título espanhol. Apesar deste onze-tipo, face ao excedente de qualidade no plantel e à longa duração da época, com diversas provas para disputar, uma rotatividade cuidada dos recursos humanos é o melhor caminho a seguir.




REAL MADRID


Principal estrela: Van Nistelrooy.
Onze-tipo (4-4-2): Casillas; Sérgio Ramos, Pepe, Cannavaro, Miguel Torres; Diarra, Sneijder, Robinho, Drenthe; Raúl, Van Nistelrooy.
Principais opções: Gago, Guti, Higuaín, Júlio Baptista, Saviola.
Treinador: Bernd Schuster.
Comentário: é uma grande equipa, mas a concorrência poderosa do Barça, aliada à crónica instabilidade madrilena, faz com que não acredite na viabilidade do bi-campeonato. Se Daniel Alves for contratado, entra directamente para o onze, é lógico. Se Robben sempre rumar ao Chamartin, baixa Drenthe para lateral, em detrimento de Torres (lateral apenas mediano). Se Raúl continuar na má forma da época passada, senta no banco por troca com Higuaín, avançando Robinho para fazer parelha com 'Van Gol'.




Não resisto, como nota final, a uma reflexão comparativa interessante entre Barcelona e Real Madrid. No texto 'MESSI, DISCÍPULO DE MARADONA', aqui exibido em Abril passado, escolhi os meus dez melhores jogadores do mundo daquele momento. Talvez agora fizesse uma escolha diferente na ordem (Kaká estaria mais à frente, por exemplo), mas os nomes seriam exactamente os mesmos. Pois bem, daquela elite soberba, o Barça conta com cinco (!) jogadores (Ronaldinho, Henry, Deco, Messi e Eto'o), contra apenas um (Van Nistelrooy) do Real. Elucidativo! Barcelona, Real Madrid, Sevilha, Valência, Atlético Madrid, Saragoça, Bétis, Corunha, Athletic Bilbao, Villarreal, Osasuna, Espanhol, Recreativo Huelva, Maiorca, Racing Santander, Valladolid, Getafe, Levante, Murcia e Almería. São estas as vinte equipas que vão entrar em cena nos relvados espanhóis, dando corpo a uma das mais fantásticas ligas da Europa. A não perder, num país perto de si.

4 comentários:

gerson sicca disse...

Bruno, O Deco foi um dos grandes responsáveis pelo sucesso do barcelona. Ele é quem organizava o meio-campo e permitia que o ronaldinho jogasse mais solto, o que não acontece na seleção brasileira, onde o ronaldinho nunca jogou grande coisa.
Quanto ao Daniel Carvalho, eu não sei como um grande clube europeu ainda não o contratou. Provavelmente é porque o empresário dele não tem tantos contatos assim.
Abraço

Paulo Pereira disse...

Bruno, provavelmente mais um grande campeonato k nos manterá empolgados, durante meses. Confronto de titãs? Hummm, o Real de Schuster provoca-me algumas reservas, pese a constelação de estrelas que possui. Sectorialmente, parece-m k o alemão tem à sua disposição um plantel equilibrado, cheio de soluções, com potencial para ombrear com o Barça e dar espectáculo. A pré-temporada, no entanto, tem sido frustrante. Muita curiosidade para seguir a carreira de Pepe - alvo de muita desconfiança pelos media, face ao preço - Drenthe, k me impressionou no europeu jovem.
No entanto, o Barça parece-me, tal como na época passada, claramente à frente, o k nem sempre é indiciador de vitória no final, como Capello exemplifcou. Um quarteto maravilha, com esse injustiça patente de Deco ser relegado para o banco. Uma equipa k não olhou a meios para se reforçar, juntando ao tandem ofensivo um Henry sequioso de glórias europeias e com contratações acertadas na defesa, onde destaco Milito, após uma fantástica temporada no Saragoça de Fernandez.
O meu coração, em terras de nuestros hermanos, pende sempre para os colchoneros, este ano com uma equipa de dar água na boca. Simão, Reyes, Luis Garcia, Forlan, juntando-se à excelente matéria-prima k Aguirre já tinha à disposição, com Aguero prestes a explodir e Maxi Rodriguez a merecer outros vôos. Julgo k a saída de Fernando Torres não se fará sentir, devido à enorme qualidade do uruguaio Forlan. Uma palavra tb para uma contratação pouco mediatizada, de um valor emergente em Espanha. Raul Garcia, ex-Osasuna, tem tudo para liderar o meio campo do Atlético, jogando ao lado de Maniche e Luccin. Começam logo com um teste infernal, defrontando fora o Real, mas serão candidatos a um lugar na Champions.
O Sevilha, impressionante no pulo dado nos últimos tempos, tem vindo a coleccionar troféus - e dá vontade de rir ao ver a capa do Record dizendo k os leões são os melhores da Europa - com 2 UEFA's, uma Supertaça Europeia (e falta disputar a outra), uma Taça de Espanha. Duvido, no entanto, k consigam manter o nível de anos anteriores, se deixarem sair Dani Alves e Mariano Puerta, os seus laterais.
A acompanhar com atenção o Saragoça, do ex-técnico portista Victor Fernandez. Novamente reabilitado, levou a equipa à UEFA, merecendo elogios pelo futebol praticado.

Um abraço, e mais um grande artigo teu!

Miguel Mendes disse...

Uma excelente análise a uma liga que se espera emocionante. Tenho ideias semelhantes quanto aos onzes de cada equipa. É mais ou menos por aí que as opções vão andar. Aposto no Barcelona para campeão e espero também uma época em grande do Atlético de Madrid.

Saudações

quintino disse...

Excelente análise.
O meu coração naquelas terras é "blaugrana" mas não sei... aquilo é um caldeirão.
Quanto ao Real, falta saber o que fará Schuster com tanto às na mão.
Pepe? Penso que vai ter de andar atento para não se transformar num Secretário...