quarta-feira, 16 de maio de 2007

O ENIGMA


O FC Porto está sob intensa pressão, especialmente o seu treinador Jesualdo Ferreira. Depois de um belo final de 2006, com algumas grandes vitórias, apuramento para os 'oitavos' da Champions e liderança mais ou menos tranquila da 1ª Liga, os portistas entraram numa queda abrupta de rendimento com a chegada de 2007, após, recorde-se, uma inconcebível paragem da competição, por altura do Natal, durante cerca de um mês.

No final do jogo em Paços de Ferreira, Jesualdo, enigmático, afirmou que essa quebra, resultante numa 2ª volta desastrosa e eliminação da Taça, era fácil de explicar e todos sabiam o porquê. O certo é que se instalou uma dúvida no ar, pois ninguém sabe em concreto que porquê é esse. Já li e ouvi variadas opiniões acerca do assunto. Afinal ao que se referiu Jesualdo Ferreira? Paragem demasiado prolongada? Lesões que afectaram o plantel? Arbitragens prejudiciais? Falta de apoio visível da direcção à equipa e a si próprio? Jogadores em sub-rendimento? Confesso que, mal soube desta declaração do técnico, me veio logo à cabeça a falta de apoio directivo, motivada pelos constantes julgamentos públicos de Pinto da Costa, no âmbito do processo 'Apito Dourado', que fazem com que o presidente ande calado e aparentemente alheado. No entanto, se para o exterior a imagem que fica é nesse sentido, acredito que no seio do clube, Pinto da Costa continua presente e apoiante, daí que não creio na veracidade desta teoria. Estou em crer que o técnico azul e branco se referia aos problemas de lesões que afectaram inúmeros jogadores nucleares, a começar pela longa paragem de Anderson. Ou então às arbitragens que se têm verificado, as quais têm penalizado o FC Porto em medida superior à que tem acontecido com Sporting ou Benfica.

O facto é que Jesualdo Ferreira tem estado debaixo de fogo. Apesar de estar na liderança e a apenas uma vitória do título nacional, a contestação dos adeptos portistas tem subido de tom. Como portista, não me revejo nessas críticas. Não culpo Jesualdo pela péssima 2ª volta e pelo desbaratar da vantagem pontual que possuiu, algo que nos faz sofrer mais do que o que era suposto. A conjuntura que encontrou no clube é mais difícil que aquela que os antecessores experimentaram. Embora tenha cometido alguns erros, como aliás todos cometem, acho estranho como se pode crucificar um treinador quando este está prestes a sagrar-se campeão (o Aves não vai resistir). É lamentável que se ataque alguém que, apesar de tudo, se tem aguentado muitíssimo bem no comando de um tubarão como o FC Porto praticamente sozinho, pelo menos para o exterior, dando o corpo às balas e procurando sempre defender os interesses do clube. Opções técnicas erradas? Mas cada cabeça tem a sua ideia e ninguém garante que opções diferentes tivessem dado melhor resultado, apesar de também discordar diversas vezes das decisões tomadas. Agora, limitar o abaixamento de forma da equipa às opções técnicas é, na minha opinião, errado e injusto, tanto mais que no melhor período da época (vitórias em Hamburgo, em Moscovo, em casa com o Benfica), elas não foram muito diferentes.

Por exemplo, Paulo Bento é agora elogiado pela generalidade da crítica, mas não se podem esquecer os ataques que também sofreu na altura das derrotas caseiras com Benfica e Spartak Moscovo. Tudo depende dos resultados, mas eu rejeito avaliar os técnicos apenas por esse ponto, gosto de olhar igualmente para a competência, inteligência e personalidade forte. Bento talvez seja nesta altura o técnico mais consensual e o Sporting o clube mais estável, mas é preciso lembrar que Jesualdo e o FC Porto seguem um ponto à sua frente e a probabilidade de serem campeões é enorme. Por aqui também se vê a diferença do grau de exigência entre um e outro clube. No FC Porto, nunca um técnico com tantas possibilidades de perder o título, seria aclamado como Bento é no Sporting. Se Jesualdo estivesse em Alvalade a uma vitória de fazer a festa era um deus. Tirem as vossa próprias conclusões. O FC Porto tem um orçamento maior? Se o tem foi porque soube gerar mais receitas por mérito próprio ao longo dos anos e sabe-se que, por vezes, o dinheiro não é tudo e não é por um treinador ter mais recursos ao seu dispôr que parte em vantagem sobre os demais. O Chelsea desta época e o Real Madrid das anteriores são bons exemplos.

Para mim, a baixa de forma em 2007 continua a ser um dilema e não encontro explicações objectivas para que tivesse acontecido. A longa paragem natalícia, as inúmeras lesões, o sub-rendimento de alguns jogadores (Lucho é o caso mais flagrante), ou mesmo o facto de alguns empresários influenciarem certos jogadores no sentido de saírem (continua a fazer-me muita impressão ver declarações como as de Pepe, dizendo que o objectivo de qualquer jogador é sempre um clube maior e blá blá blá, blá blá blá), podem estar na base dos resultados menos bons. Com certeza que Jesualdo também cometeu alguns equívocos, mas é injusto não se valorizar o seu trabalho, quanto a mim positivo.

No próximo domingo, só uma hecatombe impedirá o FC Porto de ser campeão. Para a próxima época, defendo a continuidade de Jesualdo Ferreira no comando técnico dos azuis e brancos. Quem sabe se, com uma conjuntura no clube mais favorável, não fará um trabalho que orgulhe todos os portistas.

3 comentários:

Paulo Pereira disse...

Não partilhamos a mesma opinião em relação ao Jesualdo, o que também é salutar. Mas julgo que puseste o dedo na ferida. Mais do k qualquer uma das razões apontadas na imprensa, a verdadeira, aquela a que Jesualdo se referiu, tem a ver com a pressão sentida pelo Porto derivada do "Apito Dourado". A Direcção portista, com especial ênfase em Pinto da Costa, têm estado sobre fogo cerrado, não só pelos processos que, em determinada altura, se avolumaram nos Tribunais, mas também pk alguns cronistas aproveitaram as fragilidades portistas para destilarem os ódios antigos. Sem o resguardo de outros tempos, Jesualdo viu-se no meio da tempestade, sozinho, tendo ele que fazer a defsa do grupo, algumas vezes injustiçado pelos homens do apito. Nunca esteve, e é fácil perceber pk, confortável nesse papel. Talvez tenha estado aí a razão para a quebra brutal nesta 2ª volta. Talvez, pois parece-me k este argumento, por si só, não justifica tão fracos desempenhos.
Agora, resta-nos apoiar e esperar que, por volta das 21 H de Domingo, a festa seja nossa.

Um abraço

Pedro Barata disse...

Acho Jesualdo um bom treinador e não nos podemos esquecer que começou a trabalhar com um grupo feito por Adriaanse e reforçado em Janeiro com... Mareque e Renteria! (Será que estes dois foram escolhas do professor? Ou será que foram impostos ao professor, pensando nos interesses de terceiros?) Adiante. Em materia de orçamento, aí penso que o Porto leva clara vantagem sobre os demais concorrentes, mormente o Sporting. Real Madrid e Chelsea tinham maiores orçamentos nos seus países, mas os outros também tinham orçamentos de peso. Em Portugal isso não acontece. Por aí, o Porto teria grande vantagem, se bem que isso não é tudo obviamente . Mas voltando a Jesualdo, acho injusto que seja criticado. Vai ser campeão no primeiro ano no clube. Ponto final. O resto agora é conversa. Orçamentos, etc, etc... Vai ser campeão com um plantel rico no panorama nacional (sobretudo do meio-campo para a frente), mas que também tem carências e não foi feito por ele.
Para finalizar, sobre o abaixamento de forma do Porto na segunda metade, penso não ter sido motivado por um unico factor. Mas uma conjugação de vários, sobretudo ausências de jogadores, quebras de rendimento de outros, etc... Sabendo-se o que se sabe de Pinto da Costa, penso que, ainda que esteja em silêncio para o exterior, interiormente está lá sempre. E esta semana no primeiro treino para o jogo com o Aves, liguei a tv e lá estava ele a assistir ao apronto.
Um abraço, Bruno

Rantas disse...

Note-se que a "inconcebível paragem da competição" foi fortemente defendida pelo próprio Jesualdo Ferreira.